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História e Cultura: Surgimento do mundo na versão dos Kassanges

Nibojí, 18 de novembro de 200815 de agosto de 2012
Tata Kisaba Kavinajé (*)
“Diziam os kassanges que outrora todos nós habitávamos o mundo espiritual. Nmutalambo são as lendas contadas pelos kassanges, que falam da precipitação da grande energia sobre o mundo material.

Diz a lenda que, no passado, Angomi era o próprio Nzambi. Neste tempo Angomi dormia sono profundo e se expandia cada vez mais. Ao crescer, Angomi foi vendo que, ao seu redor, estava inserido o desconhecido. Como não podia sair do seu espaço, começou a emitir forte luz e a concentrá-la num ser chamado Aluvaiá. Este prometeu a Nzambi que iria percorrer os outros espaços e trazer informações. Para isso, pediu a Nzambi o poder mágico de precipitar a energia, capaz de formar a massa-matéria. Nzambi tão logo ouviu o pedido, deu o segredo à Aluvaiá, e este saiu em busca de outros espaços.

Ao penetrar no desconhecido, Aluvaiá começou a ficar vaidoso. Sentindo-se poderoso pelo segredo obtido, resolveu não mais voltar. Passou então a moldar as massas, após preciptar a energia, transformando-a em matéria. Os seres criados por ele passaram a ocupar os grandes centros da matéria aglutinada, chamados mundos.

Os seres não tinham, entretanto, o segredo da perpetuação, única chave deixada a Nzambi. Aluvaiá não se incomodava com isso e criava, a cada dia e a cada hora, um novo ser. Aluvaiá lhes deu o sangue, para que a vida das criaturas fosse mais prolongada. Entretanto, Aluvaiá, após algum tempo, começou a se enfraquecer. Para se manter poderoso começou a beber sangue dos seres que ele mesmo criara.

Assim procedendo, Aluvaiá, passou a ter a mesma constituição dos seres viventes. Nesse tempo os seres não conheciam outro senhor do universo – aquele que fora incriado. Indagando à Aluvaiá, um deles lhe pediu vida eterna, e este logo respondeu que o segredo esta com Nzambi. Aluvaiá sobrepôs a barreira e chegou até Nzambi. Mentindo, disse-lhe que do outro lado havia seres bonitos, planetas, flores, etc. Acrescentou, então, que se ficasse mais tempo se enfraqueceria muito.

Por isso, precisava conhecer o segredo da perpetuação. Nzambi percebendo as suas emanações, falou: “Aluvaiá, você me enganou, usando seus poderes e bebendo da sua própria essência. Por isso, mandarei você de volta e, como castigo, terá que se manter com a própria essência da vida que você conhece – o sangue”. Nzambi tomou a decisão de criar novos seres espirituais para controlar seu infinito espaço: eram os Nkisi.

 De tempos em tempos, Nzambi pedia a um dos Nkisi para descer ao espaço de Aluvaiá fazia um bom trabalho. Nzambi então pediu que Aluvaiá viesse à sua presença e falasse das suas obras. Aluvaiá pediu ajuda àqueles que eram os mensageiros de Nzambi. Para isso, Aluvaiá usando da resposta positiva desceu com eles aos mundos habitados. Os Nkisi, vendo a grande obra, passaram a ter os domínios dos mares, matas, ares, fogo, etc. Aluvaiá vendo o seu império comprometido, zangou-se com os Minkisii. Estes alegaram que tais segredos de formação da natureza valorizaram os seus trabalho.

 Os Nkisi, de posse dos domínios de Aluvaiá, passaram a capacitar os seres de realizar diversas proezas. Aluvaiá, com isso, foi perdendo seu poder e resolveu voltar a Nzambi, alegando que os mensageiros expulsaram-no do seu espaço. Nzambi deu então à Aluvaiá a missão Intermediária de ficar entre os dois espaços. Com o passar dos tempos, os seres, sentindo necessidade de Aluvaiá, faziam-lhe sacrifícios para chamá-lo, já que estes ficaram dependentes do sangue por ele criado.

 Como castigo, Aluvaiá passou a ter a responsabilidade de manter a vida material através do sangue. Esta lenda mostra porque não conhecemos diretamente Nzambi. Fomos formados por Aluvaiá. De Nzambi recebemos apenas a essência do espírito, dada por Lembaranganga. Foi ele que precipitou os seres espirituais à matéria”.

(*) Espedito Azevedo é filósofo, especialista em Administração Legislativa e Gerenciamento de Projetos. Iniciado por Jiboin d’Nzambi é hoje Tata Kisaba do Terreiro Tumbalê Junçara, dirigido por Tata Talamonakô.

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