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História e Cultura: Kôngo-Tshòkwe, as Afinidades ou Filiações?

Nibojí, 30 de novembro de 200823 de outubro de 2011

Colaboração de Patricio BATSÎKAMA, BA in Filosofia e Historia de Arte.

Para qualquer antropólogo, Kôngo e Tshòkwe são dois grupos etno-linguísticos diferentes. Para o linguista cada grupo evolui junto com o seu quadro geográfico, para o historiador, este acredita que os dois, para além de evoluir nas zonas diferentes, têm origens heterogéneas. Apesar destes pontos de vista, os especialistas não ignoram os laços de parentesco entre os dois “grupos Bantu”.

III.1. País das Origens.

Tshòkwe e Lùnda dizem ter coabitado junto nas origens, em IKO, ou KOLA.(1) A palavra IKO significa LAREIRA em português, escreve Albino Alves no seu dicionário. Podemos verificar mais sentidos no Dicionário Umbundu-Portugues, escrito pelo L.Guennec e Valente, IKO significa FOGO, LAREIRA, LAR(2) .

De resto, IKO não é o único termo. Os Tshòkwe falem também de LUNDU nyi Senga(3) . A expressão otjiLUNDU significa em tshòkwe (umbùndu também) “aldeia abandonada há muito tempo”; ULUNDU ou ovoLUNDU (tshòkwe e umbùndu): montanha onde busca-se as lenhas, ou queima-se as lenhas; lugar (montanha) onde fabrica-se carvão; OkaLUNDU: cemitério, sinónimo de KEMA: ser carbonizado ou pintar em negro utilizando o método de queimar(4).

III.2. Localização deste País.

Marie-Louise Bastin, M. Lima pensam que os Tshòkwe vêm de Tanganyika, a Leste, conforme informe os repertórios orais. Este leste diz-se NGANGELA. Eis como reza a tradição:“ku Ngangela tangwa cicamene… Ku Luanda cangoloshi”(5) : A Leste vem o sol e vai dormir a Oeste.

Traduzimos isso literalmente NGANGELA onde o sol nasce, LUANDA onde o sol vai dormir. Bastin, Lima e outros são letrados e passaram pelo banco da escola onde aprenderam que o sol nasce a Leste. Eis a razão pela qual no seu entender, NGANGELA traduz-se aqui por Leste. Portanto como podemos ver, Luanda aqui não quer dizer Oeste. Isto demonstra que NGANGELA, significaria outra coisa! A lógica quer região contra região e ponto cardeal contra ponto cardeal, o que sempre foi!

Ngangela: de N, de gànga e de la. O primeiro é prefixo, o segundo a raiz e último o sufixo. Albinos Alves (com Dicionário Umbundu) e Adriano Barbosa (com Dicionário Cokwe-Portugês)(6) escrevem que o verbo gànga: significa brilhar, cintilar, propagar o fogo de vistas (ou olhos), ser cruel. O sufixo la(hala) marca a acção. Pois, NGANGELA significaria onde faz-se muito sol, sol sendo o fogo primitivo, ensinam as lendas. Leste é um dos sentidos. Como região, confine a IKO, KOLA, LUNDU e MBANGALA, porque tem sentido de proveniência, da origem do sol. Ora, onde localiza-se este país onde origina o sol?

Nas suas pesquisas Lamal constatou que os Bantu que se formaram no circulo zimbabweano seguiram os rios conforme a direcção destes últimos, e fundaram reinos perto das águas. E o autor sublinha que “os grandes rios (que serviram de migração) correm do sul para o norte desde o Kalahari inferior até nas caídas de (rio) Tsàkàla Mumvìdia”(7).

Kalahari, deserto. Ora Ngangela, onde vem o sol é um lugar árido! Na actual geografia, no Kalahari inferior encontramos nascentes de águas (fontes), portanto um dos sentidos da palavra Ngangela é nascente do sol. Assim, fazem boa correspondência: deserto, sol, calor, região árido. Os Kôngo localizam Mbângala (origem deles) no mayânda (sul-calor). Delachaux situa esta região-sul-calor-sol que é no Kalahari inferior, justamente nesta região que fala Lamal.

Os elementos linguísticos indicam que Kôngo e Tshòkwe parecem ter as origens idênticas, dum mesmo país.

III.3. O Primeiro Rei

III.3. a) Tshòkwe

“Konde amaldiçoou seus filhos assim como suas descendências; lhes desclassifica da herança e proclama que doravante a sua filha vai lhe suceder. Quando sentiu a morte bater a sua porte, confiou a seu irmão o bracelete, este símbolo do poder, recomendando-lhe de transmitir a Lueji. Konde foi enterrado debaixo do rio. SAKALENDE, seu irmão, convoca os Nobres (Tubùngu) que vão ratificar a decisão do defunto”(8).Insistimos no termo SAKALENDE. Uma primeira hipótese é tal como este antropónimo quer dizer PAI DE KALENDE. SA, partícula que significa pai e de KA-LENDE, alguém que é lento, preguiçoso, do verbo lendelela.

Conforme as versões a respeito deste evento, eis o que a nossa humildade pensa ser uma verdade histórica:

Saka: de saka, agitar (um liquido no vaso, ou objectos no cesto); adivinhar, oscilar, vacilar o cesto(9). Podemos verificar no dicionário de Adriano Barbosa: sâkula (derivado de sâka) significa escolher, seleccionar, tirar de lado, excluir, eliminar e sâkalwila (de sâka): tratar medecinalmente. Sem sombra de dúvida, é aqui questão de NGANGA ou Padre, ou alguém desta classe Sacerdote).

Lende: de lende nuvem, confusão, turvo. Adriano Barbosa, escreve no seu dicionário que lende significa ser preguiçoso, sem actividade, lento. O autor assinala, para além, que é uma velha forma e pouco usada. Este sentido é largamente confirmado pelos verbos: 1) lendila: ser ou ficar muito tempo sem obra; cobrir-se de nuvens; 2) lendelela: sujeitar, submeter. Este termo referia-se a Rueji. Porque ela foi muito antes proclamada como sucessora. Portanto ficava ainda no entanto lenta, isto é sem trabalho, sem actividades. E isto diz-se em termo bantu da sacralogia, ela foi coberta de nuvens. Pois, para sair deste estado, foi necessário a intervenção de SAKA LENDE (ou melhor Nsaka ja Lende), assim como o diz já o sentido do nome (que trata com a medicina tradicional, quem agita os preguiçoso, etc.). Pois conforme as versões acerca desta história, sem o sacramento e ou a intervenção de Nsaka já Lenda, nunca Rueji sucederia.

III.3. b) Kôngo

“Houve uma grande confusão na Corte e Nsâku Ne Vûnda resolveu a situação deste modo: quem pretender suceder ao trono, deve doravante ser baptizado pelo Sacerdote Nsâku Ne Vûnda, sem gesto o qual, nenhuma legitimidade será reconhecida”(10) , assim traduzimos extracto duma tradição recolhida pelo Monsenhor Jean Cuvelier.

“Na localidade de Mbânza-Kôngo a tradição assinala a existência duma autoridade de carácter religioso, possuindo os poderes mágicos e qualquer candidato para dirigir deve necessariamente adquirir o seu apoio sem o qual nenhum poder será reconhecido. Sem o seu consentimento, nenhum rei não pode reinar”(11) . Assim fala Dos Santos.

 Passamos as similitudes. SAKA significa assim como Nsâku, que consagra, quem administra um sacramento a alguém, quem abençoa. Este Nsâku dos Kôngo, lemos acima, possuía os poderes mágicos e que foi de carácter religioso, acrescenta. Isto concorda tanto com SAKA Tshòkwe que trata medicinalmente ou que agita os preguiçosos. Também, ninguém esquece que a terapia no mundo bantu requer os poderes sobrenaturais na pessoa do praticante.

Quanto a LENDE, Rueji foi lenta, sem actividade, sem trabalho. Isto quer dizer ainda estava coberta das nuvens. Eis a razão pela qual, foi-lhe necessário a submissão (lendelela). Observamos que nos Kôngo este LENDE deve, na lógica das coisas, corresponder a VÛNDA cujo as raízes: 1) repousar, descansar, tomar um tempo para descansar: 2) ser desempregado, tomar o seu tempo sem nada fazer. Como nome duma pessoa, escreve Laman no seu famoso Dicionário Kikôngo-francês, “diz-se também duma pessoa gravemente doente”. Ora, o sentido Tshòkwe de SAKALWILA completa esta ideia Kôngo exposta pelo Laman. Rueji significa “quem se quer inabordável, impagável, que não quer” em Tshòkwe. Ora, Luezi em Kikôngo, lemos nas lexicografias, “pessoa que não quer trabalhar”(13) , sinónimo de Lukenyi “que quer ser inabordável, alguém que ninguém pode tocar ”(14).

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