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História e Cultura: Fundação de Luanda

Nibojí, 18 de novembro de 200815 de agosto de 2012
Autor desconhecido

Sabemos que os portugueses do Congo começaram logo a explorar o sertão, percorrendo-o em todos os sentidos, com preferência particular pelas regiões que ofereciam vantagens comerciais de maior vulto. Foram os interesses mercantis que levaram os lusos a devassar a região de Luanda.

Acumulavam-se aqui dois motivos destacados, era zona favorável ao resgate de escravos e fornecia o zimbo, pequenina concha com valor fiduciário. Nos primeiros contatos que os portugueses tiveram com o rei de Angola, logo ele pediu ao seu monarca que lhe enviasse missionários, pois desejava que os seus povos aprendessem a nova doutrina. Se o requerimento não teve deferimento imediato, ficava a dever-se isso a diferentes causas, e entre elas a de não ser possível satisfazer todas as necessidades da missionação.

Poderemos ainda admitir outra, não merecer este régulo tanta confiança como o do Congo, sobretudo como o famoso D. Afonso. Todavia, o rei de Portugal mandou-lhe alguns missionários jesuítas, a que se juntaram mais tarde os dominicanos, os carmelitas e os franciscanos. O rei do Congo era um dos grandes potentados africanos, a quem outros obedeciam e pagavam tributos. Devemos ter isso em conta, e pensar que a sua qualidade de suserano, em relação a outros régulos nativos, fazia com que as relações com os portugueses fossem enormemente facilitadas.

Sabe-se que o rei de Angola estabeleceu contato com os lusitanos como conseqüência direta e imediata das boas relações mantidas com o primeiro. Tendo sido feito em 1557 um insistente pedido do régulo angolano para que fossem enviados missionários, só foi atendido em fins de 1559. No dia 22 de Dezembro, saíram de Lisboa três navios, em que embarcara um emissário do rei de Portugal, Paulo Dias de Novais, e com ele dois padres jesuítas, o Padre Francisco de Gouveia e o Padre Agostinho de Lacerda, coadjuvados por dois irmãos auxiliares. Atingiram a barra do Cuanza no dia 3 de Maio de 1560, mantendo-se nesta região durante bastante tempo.

O rei de Angola recebeu mal os portugueses, embora se desconheçam pormenores das relações entre eles estabelecidas, pelos quais possamos fazer juízo mais exato. Aquele que havia feito o pedido tinha já morrido; agora governava aqueles povos e aquelas terras outro potentado indígena, que apreciava menos a colaboração lusa e devia olhar os componentes da missão lusitana como agentes mais ou menos disfarçados do rei do Congo, adeptos da sua política e defensores dos seus interesses.

Teve o cuidado de os conservar prisioneiros nas suas terras, durante bastante tempo, tomando medidas para que não conseguissem escapar-se. Tirou-lhes tudo quanto possuíam, incluindo mesmo os objetos de culto que haviam levado, e só mais tarde, em face de condições novas, consentiu que Paulo Dias de Novais saísse das suas terras. Mostrava-se, agora, disposto a dar facilidade de movimento aos portugueses, uma espécie de liberdade condicionada. Esperava mesmo que o ajudassem em algumas dificuldades do seu governo e do seu reino, sobretudo na guerra.

Sabemos, todavia, que a permanência de Paulo Dias e dos seus companheiros, Padre Francisco de Gouveia e Padre Agostinho de Lacerda, em terras do Dongo foi de alguma maneira proveitosa. Embora tivessem já anteriormente tomado contato com os portugueses, a presença tão prolongada da missão enviada pelo monarca português teve como conseqüência lógica que a superioridade da cultura européia se acentuasse e impusesse aos olhos dos naturais.

Sob o aspecto missionário, esta primeira atuação dos jesuítas, em Angola, teve o mérito de desbravar um campo que, mais tarde foi melhor arroteado, embora nunca se obtivessem colheitas abundantes. Em 1570, a pedido do rei D. Sebastião, foram mandados para o Congo quatro missionários dominicanos, três padres e um irmão auxiliar. Sob o aspecto escolar, algumas coisas puderam fazer apesar de as condições de trabalho serem extremamente deficientes. Paulo Dias de Novais voltou a Portugal para preparar uma pequena expedição de auxílio ao rei que o retivera sob vigilância durante vários anos. Começa aqui, praticamente, a história da ação portuguesa nas terras da bacia do Cuanza e regiões limítrofes. Na sua segunda viagem a Angola, Paulo Dias de Novais saiu de Lisboa no dia 23 de Setembro de 1574, segundo alguns autores, ou no dia 23 de Outubro do mesmo ano, segundo outros – entre os quais se contam Alberto de Lemos e Norberto Gonzaga.

Viajavam com ele dois padres da Companhia de Jesus, o Padre Garcia Simões e o Padre Baltasar Afonso. Estes sacerdotes vieram e falecer no campo missionário, o primeiro deles poucos anos depois, no dia 12 de Maio de 1578 e o Padre Baltasar Afonso já no século seguinte, em 29 de Março de 1603. Aportaram primeiramente à Madeira e depois a Cabo Verde, tendo chegado a Luanda em Fevereiro de 1575 – no dia 11, segundo o Padre Pedro Rodrigues, ou no dia 20, segundo o Padre Garcia Simões, o que permitiu a alguns estudiosos fazerem diversas deduções e arquitetarem numerosas e habilidosas hipóteses.

Devemos ter em consideração, todavia, que a maior parte dos autores aceita a data de 25 de Janeiro como a do estabelecimento de Paulo Dias de Novais, vindo daí a antiga denominação da cidade, São Paulo de Luanda. Uma das mais pesadas obrigações do estatuto ou regulamento de Paulo Dias correspondia ao encargo de fixar nas terras da sua capitania nada menos de cem famílias européias, dando início a um processo de colonização e povoamento que se foi estendendo pelos séculos fora e que em determinados períodos teve entusiastas muito dedicados.

Pode deduzir-se que os resultados obtidos não foram os que se esperavam, até mesmo porque o projeto não chegou a ter realização. A finalidade imediata desta colonização temporã era influenciar os nativos com os costumes e a cultura de origem européia, levando-os assim a assimilar voluntária e espontaneamente a civilização que os portugueses se propunham transplantar para estas paragens. Uma das primeiras preocupações de Paulo Dias de Novais consistiu na tentativa de libertar o seu antigo companheiro de cativeiro e grande amigo, Padre Francisco de Gouveia, que durante tantos anos sofrera as contrariedades de uma situação indesejável, pouco agradável, a permanência numa região de clima adverso, sem o apoio dos seus compatriotas e dos seus confrades, e que, apesar de tudo isso, se não deixou cair nos excessos e no desleixo característicos e facilmente explicáveis em circunstâncias idênticas.

Não se põe de parte a hipótese de terem estado com eles outros portugueses, de condição social mais humilde, que lhes estavam subordinados, seus subalternos na jerarquia social; esse diminuto núcleo de companheiros de vicissitudes, amalgamado pela força das contrariedades e do sofrimento, deve ter contribuído bastante para afugentar o desânimo e alimentar e esperança na solução final do problema de todos. Paulo Dias não conseguiu o veemente desejo de restituir à liberdade o piedoso jesuíta, pois o missionário faleceu na povoação de Dongo, à qual também se dá o nome de Cabassa, no dia 19 de Junho de 1575, embora se apontem outras datas prováveis do seu passamento.

Alguns estudiosos das coisas angolanas aceitam que a antiga capital do reino de Angola, Dongo ou Cabassa, corresponda à atual povoação de Pungo Andongo. O rei africano não era já o que retivera os enviados do monarca português. Sabe-se que o atual tinha sido discípulo, desde muito pequeno, do P. Francisco de Gouveia. Este não deixou de aproveitar a sua forçada e prolongada estadia entre os moradores para difundir civilização e espalhar o saber.

Temos conhecimento de terem sido introduzidas algumas práticas civilizadas nos hábitos dos nativos, ao longo desta dezena e meia de anos de exílio, e não será ilógico pensar que as atividades intelectuais merecessem certa atenção aos jesuítas, se não através da aprendizagem da leitura e da escrita pelo menos de forma mais genérica e de maneira mais difusa. Não podemos conceber que se passasse tanto tempo de convivência sem que dos contatos mantidos ficasse algo de positivo. Não é possível imaginar que as populações locais, reconhecendo a superioridade de conhecimentos dos portugueses, deixassem de absorver influências, que a sua curiosidade deixasse de procurar explicações para coisas e fenômenos de que tinham visão bem diferente.

Nos mesmos dias em que se recebeu em Luanda a notícia da morte do jesuíta, Paulo Dias de Novais recebia a comitiva enviada pelo régulo para o saudar e, por certo, para estabelecer com ele uma plataforma de entendimento que se adaptasse às circunstâncias. Fora a Lisboa com o fim de trazer auxílio militar ao rei. Uma vez desembarcado em Angola, não era já o enviado desprovido de forças e à mercê de todas as imposições, era o chefe que estabelecia planos de domínio, traçava projetos de governo, impunha o peso da sua autoridade. Os temíveis jagas ou jingas continuavam a ser uma ameaça para o rei de Angola, e isso ajudaria Paulo Dias de Novais a estabelecer-se solidamente, aproveitando-se com habilidade do equilíbrio social que ele próprio ajudava a manter.

A recepção aos emissários do rei de Angola efetuou-se com luzimento, segundo protocolo próprio do meio, no dia 29 de Junho de 1575, numa das cabanas já levantadas no morro de S. Paulo; tão grande aproximação de datas pode, contudo, levantar algumas dúvidas. E podemos lembrar também que nesse dia se festejavam os dois apóstolos S. Pedro e S. Paulo; isso, se em parte pode servir de base para explicar o nome dado (S. Paulo), por outro lado leva-nos a perguntar qual o motivo porque não se homenageou o outro apóstolo (S. Pedro), que lhe era superior!? Francisco Rodrigues afirma, na sua História da Companhia de Jesus na Assistência de Portugal, que Paulo Dias de Novais deu princípio a um hospital e Misericórdia, em Luanda.

Não deixa de ser provável que o encarregado de fundar um reino prestasse a possível atenção aos problemas da saúde, defendendo da doença e da morte os seus mais próximos colaboradores. O mesmo autor afirma também que a primeira igreja construída na cidade, no morro fronteiriço à ilha – onde também foi edificado um templo pelos primitivos portugueses que ali se fixaram -, era dedicada a S. Sebastião, grande devoção dos portugueses e patrono onomástico do rei de Portugal. Em 23 de Fevereiro de 1580, chegava a Luanda mais dois missionários jesuítas, mas só um deles, o P. Baltasar Barreira, era sacerdote. E em 25 de Janeiro de 1584 partiram de Lisboa mais dois padres jesuítas, o P. Jorge Pereira e o P. Diogo da Costa.

Os nativos convertidos adotavam nomes portugueses, homenageando assim figuras de destaque. Sabemos que alguns neófitos de Luanda receberam no batismo o nome de Paulo. O fundador da cidade e primeiro governador do território faleceu em Massangano, no dia 9 de Maio de 1589. Em 11 de Março de 1593, entravam em Luanda quatro padres jesuítas, sendo um deles o visitador dos estabelecimentos da Companhia, P. Pedro Rodrigues. Mas nem todos se fixaram nesta província, pois alguns se deslocaram de Angola para o Brasil, terra que então merecia as maiores e melhores atenções.

Temos de admitir que outros missionários iam chegando a Luanda; o seu número, porém, não se somava inteiramente aos que tinham vindo antes, porque a morte ia fazendo os seus estragos. O clima africano exercia então uma influência notável sobre o organismo dos europeus, sendo freqüente contrair doenças mortais de que ele era o principal culpado; eram muitos os que não conseguiam vencer a sua malignidade, cuja fama algo injusta ainda hoje corre. Apesar das dificuldades encontradas, as primeiras tentativas da evangelização do gentio deram resultados apreciáveis e alimentaram esperanças lisonjeiras.

Fizeram-se as primeiras entradas no sertão de Luanda, sofrendo as contrariedades que lhes estavam inerentes. Os padres que acompanhavam as tropas ao interior daquelas terras, àqueles inóspitos sertões, iam fazendo a evangelização que podiam fazer, em tão críticas condições, em tão problemáticas circunstâncias. Tanto assim que, em 1590, já se dizia haver aqui cerca de vinte mil cristãos. Paulo Dias de Novais, em carta de 3 de Janeiro de 1578, dirigida aos seus familiares, anunciava que a conversão dos pretos de Luanda estava a processar-se satisfatoriamente.

Os portugueses que aqui viviam é que se não comportavam muito decentemente, não se conformando de boa vontade com a rigorosa disciplina imposta pelos missionários, pois muitos deles preferiam viver livremente. As exigências que se faziam levavam alguns a sair destas terras, e o fato tinha como conseqüência lógica que o povoamento se não fizesse tão depressa como seria desejável, caminhando muito devagar…

Noutra carta do mesmo ano, datada em 23 de Agosto, comunicava ter ficado muito contente com a remessa de umas flautas que lhe tinham sido entregues; vieram muito a propósito, muito oportunamente… Os cristãos da terra cantavam já, com grande perfeição, algumas músicas religiosas bastante difíceis – a “Missa”, de Morales, o “Pange Língua”, de Guerrero, e o “Motete de Santo André”, cujo autor omitia, este a cinco partes ou vozes – e tocavam os instrumentos musicais com muita habilidade e perfeição, não só música religiosa como música profana, outras coisas ordinárias, segundo a sua expressão. Ao ouvi-los, recordava-se de seu pai – o que nos leva a concluir que deveria ser amante da boa música e virtuoso executante.

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