No Brasil, por exemplo, os senhores proibiram que as religiões tradicionais africanas se manifestassem. Mas, como compensação à dureza do trabalho imposto, permitiram que seus escravos cantassem e dançassem nos domingos e feriados. Como os bantos predominavam entre os trabalhadores rurais, seu folclore se manteve, enquanto a religião se desagregava.
Os bantos, depois de um primeiro período de autonomia religiosa, que se conhece através de documentos históricos, assistiram à transformação de seus cultos. Por um lado, esses deram lugar à macumba; por outro, amoldaram-se às regras dos candomblés nagôs, não se distinguindo deles senão por uma maior tolerância. Os cultos bantos em gradativo declínio acolheram os espíritos dos índios, o que iria levar ao surgimento de um “candomblé de caboclos”, e adotaram cantos em língua portuguesa, ao passo que os candomblés nagôs só usam cantos em língua africana.
Ney Lopes, p.164/165 – obra Bantos e Males, Identidade Negra, diz que:”em 1941 o poderoso rei do Congo, Nkuyu, é batizado, recebendo o nome cristão de João, ao mesmo tempo em que a capital de seu reino, Mbanza Kongo, passa a se chamar São Salvador. A partir daí, as populações dos atuais Congo, Zaire e Angola passam a sofrer uma violenta opressão cristianizadora. E esse é o fato gerador de mais um preconceituoso estereótipo contra os bantu: o de que, em relação aos sudaneses, suas manifestações religiosas seriam frágeis, sem estrutura, um amontoado de crendices e superstições, com suas bases emprestadas à teogonia nagô e facilmente engolidas pelo catolicismo. Mas entre os bantos famílias, clã e tribo sempre forneceram as bases da religião, inclusive com as reencarnações se processando, segundo a tradição, dentro do próprio grupo. Assim, se eles, no Brasil, tomaram emprestados, ao cristianismo e as tradições jêje-nagôs, ritos e manifestações, não foi por culpa da tão propalada inferioridade cultural. O que os levou a isso, primeiro, foi a violência católica a que estiveram submetidos desde o século XV; segundo, o fato de darem mais ênfase ao manismo, ao culto dos ancestrais reais (não míticos) que ao dos Espíritos da Natureza; e, finalmente, à brutalidade da tragédia escravista.
(*) Espedito Azevedo é filósofo, especialista em Administração Legislativa e Gerenciamento de Projetos. Iniciado por Jiboin d’Nzambi é hoje Tata Kisaba do Terreiro Tumbalê Junçara, dirigido por Tata Talamonakô.
