Tata Kisaba Kavinajé (*)
A Religião Tradicional Africana, representada – NO BRASIL – pela institucionalização “CANDOMBLÉ”, passa por um momento de reflexão e até de reestruturação histórico, cultural e conceitual. Este repensar é um processo natural e evidentemente está inserido no contexto humano, pois o Ser – que não é estático – progride, cresce e tenta satisfazer as suas ansiedades buscando (com sabedoria) respostas para suas inquietações.
Nesse despertar natural os valores éticos e morais são primordiais e qualquer reflexão que se faça em relação as nossas tradições, perpassa, obrigatoriamente, por ambos. Exatamente por isto, nos últimos anos, muito se tem debatido sobre a importância da ética. Isto é positivo, pois a comunidade afro-brasileira necessita buscar e demonstrar – amplamente – que tem princípios, respeito, consciência ética e moral, evitando-se, desta forma, uma exposição perigosa e o risco de degradação e profanação tanto das divindades quanto dos cultos e seus seguidores.
Mas é importante que saibamos e estejamos preparados para não nos atermos somente ao discurso. Não é suficiente apenas falarmos sobre a ética. É preciso agir, transmigrarmos do mero conceito para as ações efetivas. A disposição, a vontade, a ânsia pelo melhor proceder dentro e fora dos cultos são pressupostos básicos para enfrentarmos e tentarmos solucionar esta inegável problemática. Várias têm sido as posturas reveladoras de incompetência, de desvelo, da falta de uma consciência ética e moral. Tais ocorrências chegam a nos causar indignação e, a cada repetição dos feitos, externamos fortemente o nosso desejo de construção e imposição de um código moralizador.
É inadmissível que determinados sacerdotes, ditos conceituados na afro-religiosidade, seja na ânsia de querer saber; seja por suas vaidades ou pela cede de poder ou ainda pela satisfação e massageamento de seus egos, se apoderem do conhecimento e reproduzindo textos retirados de obras pesquisadas saiam por aí vendendo-os como apostilados de suas autorias. Mais vergonhoso que esse tipo de procedimento é – baseando-se apenas em escritos – a criação e a prática de atos desconhecidos dos mais velhos, descarada e inescrupulosamente atribuídos às raízes tradicionais.
Aos poucos, tal qual aos avanços nas pesquisas e resgates históricos, culturais e religiosos, o povo das Religiões Tradicionais Africanas, aqui denominadas Candomblé, tem tentado encontrar o melhor caminho. Caminho este, capaz de resgatar a credibilidade e o respeito às verdadeiras essências da religiosidade deixada por nossos ancestrais.
Essa necessidade de transpor paradigmas permite-nos observar que a concepção contextual bantu reprime e não admite qualquer pressuposto relacionado a tais formas de procedimentos sócio-comunitários. Em suas essências, os ritos religiosos conduzidos por velhos sábios não concebem quaisquer distorções de princípios éticos ou morais. Há, na verdade, um sentimento de comunhão espiritual; um movimento dual ligando todo o contexto ôntico do homem a um ontologismo (*) natural e sacro, sem que seja necessário avaliações quanto a essencialidade do comum e do profano.
Tirar uma vida, na visão bantu, é propiciar uma seqüência ou gerar outras. Não há uma premissa que indique ou caracterize perdas, mas, sim, ganhos, movimento, energização e agradecimento ao Divino. Trata-se de valorizar o sentimento de poder, de grandeza da razão e tudo provém da consciência e guarda total coerência à ética enquanto atributo da própria Consciência do Ser. Há pleno reconhecimento das limitações humanas, mas há também um esforço transcendente constante e até sublime em relação à superação da condição mortal. Busca-se uma interação e integração perfeita entre o material e o espiritual.
Evidentemente a condição mortal/humana e até pseudo humanista, ao longo dos tempos, insere-nos em pré-julgos e testes. Não raro nos encontramos diante de perguntas como: é correto matar ou não? Tirar uma vida é ético ou não é? Hipocrisias que não passam de transferência de desejos reprimidos. Muda-se o foco e o objeto, mas o objetivo, o princípio e a essência continuam exatamente os mesmos. São insuficientes para justificar princípios éticos-espirituais. Trocar o objeto-meio ou a atividade ritualística e minimizar qualquer sentimento de culpa, de forma superficial pode até amenizar o material, mas em nada contribui para o espiritual.
Distanciando-me do ethos aristotélico, da ética formalista kantiana, da causuística, da intuitiva, da deontológica, da descritiva, da dicotômica, da não-cognitiva, da normativa, da teoria emotiva e me aproximando de outras, assim creio: os valores, em toda a sua formalidade, determinam o valor da essência (ética axiológica); os bens de valores intrínsecos (caridade, amor, benevolência, bondade, etc) por si se justificam (ética pluralista); julgar o bem, por exemplo, seria o mesmo que agir pela emoção, atitudes, reações, sentimentalismo, distanciando-se dos objetivos traçados (ética subjetivista); e por fim, aproveitando o teologismo de Ransom, transcrevo: “(…) O resultado de um ato em termos de ele ser benéfico ou nocivo, certo ou errado do ponto de vista ético ou moral, depende da medida em que o ato leva à realização da finalidade, meta ou objetivo preconizado por determinado sistema da ética. A forma de ética em que a correção ou o erro moral de um ato julga-se com referência a algum resultado que se considera desejável ou bom: aquilo que ajuda a alcançar este resultado é moralmente bom, e aquilo que o frusta é moralmente mau.”
Haverá mesmo, entre os homens, alguém com uma capacidade cognitiva incontestável e suficientemente capaz de afirmar/atestar quaisquer correções ou incorreções dentro dos cultos tradicionais afro-bantu?
Discutir correções e incorreções dentro das religiões é possível e até bem vindo. Mas não há afirmações definitivas e nem existem donos da verdade e menos ainda verdades incondicionais. Mesmo os antigos pesquisadores sabem que as estatísticas são resultantes de cálculos por amostragem. No Candomblé tudo é relativo. Não há incontestabilidade.
As nossas inquietudes, o desejo de resgatarmos certos rituais e reavaliarmos alguns contextos primitivistas respaldados pela égide de uma releitura avaliativa ético-moral e religiosa, tem nos submetido à duras críticas. Os cultos tradicionais afro-descendentes, segundo muitos estudiosos e cultuadores antigos, vêm perdendo as suas identidades e se modificando e adaptando ao contemporanismo exagerado e até irresponsável.
Há que se separar o “jôio do trigo”, do contrário, essa suposta “evolução” juntamente com o rompimento de determinados paradigmas, poderá nos levar à ritualísticas contestáveis, repugnáveis e descredibilizadas pela inconsistência resultante de significados distorcidos e/ou patenteamentos e mutações de práticas originárias em razão de circunstâncias modernistas de cunho reavaliativo.
Sabe-se que isto é perfeitamente possível a partir do momento em que recorremos a atos com sentidos alterados, sejam propositais ou não, mas desde que conscientemente referendados por seus “genitores”. Reatribuir um novo sentido ao ato, substituindo as suas características originais, equivale a imputar e ratificar falhas possíveis de nossos ancestrais, fato este, inquestionáveis por aqueles que imediatamente os sucederam. Talvez nos coubesse perguntar: depois de tantos anos de retransmissão dos ritos seríamos realmente capazes de modernizá-los ou “condená-los” do ponto de vista ético-moral?
Este humilde aprendiz, sinceramente, não se julga capaz de afirmar ou atestar absolutamente nada acerca das crenças afro-bantu e seus desígnios. Quando precipitamos conclusões mediante emprego deliberado de palavras cujos sentidos alteram a essência espiritual, lamentavelmente, somos obrigados a admitir que a contextualização da época, pela oratória argumentativa dos modernistas, acaba por sofrer perdas e danos irreparáveis durante todo o processo de readaptação e adequação às exigências contemporâneas.
(*)Ontologismo: cientificismo cujo enfoque é o Ser enquanto Ser; multiplicidade do Ser em suas diversas formas de manifestação; justificativa sobre o sentido do Ser enquanto determinante de um Ente. Compreensão baseada na perspectiva de Heidegger no Dicionário de Filosofia. Giles R. Thomas, p.114
(*) Espedito Azevedo é filósofo, especialista em Administração Legislativa e Gerenciamento de Projetos. Iniciado por Jiboin d’Nzambi é hoje Tata Kisaba do Terreiro Tumbalê Junçara, dirigido por Tata Talamonakô.
