Tata Gongolaxá
A palavra “símbolo” origina-se do grego symbolon, um sinal de reconhecimento, onde observamos que sua etimologia mostra o símbolo como algo composto. É um sinal visível de uma realidade invisível que jamais se esgota em seus significados. O objeto e seu significado não podem ser separados.
As imagens, os emblemas, os objetos, os símbolos, os mitos não são meras criações de nossa alma, nosso espírito ou nossa mente, eles nos falam de todas as nossas necessidades. São objetos de nosso cotidiano, percebidos pelos sentidos, mas que apontam para algo encoberto, enigmático, para um significado e para um excesso de significados, tudo que não pode ser esgotado no primeiro momento. Algo externo revela algo interno, algo corporal em algo espiritual, algo particular em algo geral.
Geramos energias específicas ao visualizarmos, mentalizarmos, canalizarmos ou sentirmos um símbolo, eles nos levam a entrar em ressonância com o Cosmo, que é o grande objetivo.
Através dos símbolos desenvolvemos uma maior capacidade de percepções, revelações e transformações. Eles fazem parte de toda a nossa realidade, de nossa vida interior, mística e religiosa, nos orientam no campo do conhecimento e no campo religioso. Somos conduzidos a diversas dimensões, a mundos distantes, a passados remotos e ao nosso interior onde a “palavra ainda não se transformou em palavras”.
Os inúmeros símbolos existentes (lingüísticos, musicais, religiosos, mitológicos, matemáticos, etc.), ocultam verdades iniciáticas e contam sozinhos e interligados, passagens de toda humanidade além de formarem um único símbolo, o UNO.
Quando trabalhamos bem nossas energias, elas se transformam em símbolos de vida, de pensamento, de sabedoria, e o poder ativo dos símbolos projeta seu significado no Cosmo que nos devolve em energia do saber infinito.
Os símbolos são universais e difundidos em todo o mundo, em todas as culturas. Não podem ser substituídos mediante um acordo. São suporte e difusores de energias que nos revelam os segredos da matéria e do espírito, do físico e do espiritual.
No universo tudo é vida e se manifesta simbolicamente. O homem, desvendando a linguagem oculta dos símbolos, desperta seu inconsciente para a unicidade, adquire esclarecimentos suplementares sobre a natureza secreta de nossa identidade espiritual, nosso EU.
Os africanos e seus descendentes transplantaram toda uma cultura em símbolos que fazem parte de nossa sociedade cultural e religiosa.
Através de diversas etnias e de processos sociais e históricos, nosso país, nosso povo, nossa formação é profundamente marcada por instituições que transportam e recriam a riquíssima herança africana. As casas de candomblé são os maiores difusores desta herança cultural africana através de um farto e complexo sistema simbólico.
Todo grupo, toda etnia, associação ou comunidade, para se constituir como tal, deve estabelecer modo de comunicação – gestos, sons, exclamações, ritmos, cores, formas – e constitui-se numa linguagem. Essa linguagem compreende um conjunto de signos cujo intercâmbio ou relações simbólicas configuram as divindades. Desta forma, o grupo expressa seus desejos. O consenso simbólico permite que o grupo fale entre si.
No candomblé o simbolismo é realizado fundamentalmente pela prática religiosa. A comunicação se dá por atividades individuais ou em grupo, pelas cerimônias e ritos públicos e privados, pelos quartos sagrados, objetos, trajes e emblemas rituais. Dança, ritmos, cor, conta, gesto, folha, som, emblemas e objetos se articulam para significar o sagrado. São instrumentos de comunicação que, através de sua forma significante, manifestam e contribuem para manifestar e transmitir a complexa trama simbólica que ultrapassa gerações, transcendendo o tempo e a origem.
A caracterização sagrada de um símbolo é dada através de rituais religiosos especiais que transmitem poderes místicos a esses símbolos. Desta forma, não podem ser tratados como objetos-divindades ou meros amuletos onipotentes que controlam os adeptos e sim como objetos preparados e aceitos como símbolos de forças espirituais. Eles são mais que meras representações materiais são objetos essenciais em que o sagrado está representado. O religioso reverencia não a matéria e sim a essência mística que ele simboliza que tem finalidades e funções. São portadores de forças místicas, estimulam a memória grupal e o processo de ligação às divindades.
Os símbolos são um “microcosmo” que, decodificados, falam de todo um sistema religioso – estético de uma determinada nação.
Não é possível definir intelectualmente o processo de criação desses símbolos, assim como não podemos compreender seu conteúdo sagrado como uma equação matemática. Cada um deles possui conteúdos aparentes, visíveis ou manifestos em níveis consciente, latentes, ocultos ou reprimidos no nível inconsciente.
A religião, a mitologia e a arte são os veículos mais sensíveis através dos quais uma cultura manifesta seus conteúdos e necessidades latentes. Eles abrigam os mais ocultos conflitos de nosso mundo presente e passado, um gigantesco arquivo onde parte de nossa história ancestral – o inconsciente coletivo – se elabora e transmite. Símbolos de uma cultura que emprestam sua matéria para que o místico se revele.
Para vivenciarmos os símbolos, realmente como tais, devemos estar prontos para nos deixarmos tocar emocionalmente por eles, questionarmos nosso nível de vida concreto para depois nos ocuparmos com o que está oculto. Quando estabelecemos relação com um símbolo, tudo que está ligado a ele torna-se repentinamente vivo.
Ainda hoje, a grande maioria do povo candomblecista desconhece a simbologia dos objetos de nossa religião, assumindo atitudes meramente repetitivas de tradições passadas oralmente, sem serem decodificadas. Acreditamos que a cada símbolo compreendido e apreendido, crescemos em emanações de energias, interior e exterior.
Fontes: Jean Chevalier.Dicionário de Símbolos
Juana Elbein.Os Nagôs e a Morte
