Mam’etu Nibojí (*)
Os gêmeos, considerados seres sobrenaturais — ituta — inspiram um culto especial. Entre si, constitui uma irmandade, possuindo cada qual um poder espiritual sobre o congênere. Procedem das matas de bananeiras, rios, cacimbas, montes, rochas, vales, e, ordinariamente, são gerados pela via paterna, pois são os homens que mais deambulam.
Os seus alimentos místicos são o mel e o óleo de palma, e a sua roupagem, as folhas de musséquenha e mulembuiji. E o embondeiro, para eles, representa a árvore sagrada. E tal o simbolismo dos vegetais, que, se uma árvore existente numa casa «chorar», a mulher grávida que porventura lá viver, dará gêmeos à luz. Tanto o nascimento como o falecimento, exigem ritos próprios. Se, antes de nascerem, um deles verificar que um dos pais não é do seu agrado, trava-se, no ventre materno, o seguinte diálogo:
«—A quem havemos de matar? Ao pai? — Propõe a parte irritada.
— Ao pai, não. Depois, quem há de trabalhar para nos criar? — Objeta o outro irmão.
— Então, matamos a mãe.
— A mãe, não. Depois, quem nos dá de mamar?
Então, volto! E tu hás de ir também, porque foste tu que me convidaste a vir!»
Em conseqüência dessa esquisitice, os gêmeos nem sempre se formam normalmente, em concepção de mais de um indivíduo. Nalguns casos, geram-se efetivamente os dois, mas um deles, por antipatizar com um dos pais, volta para o seu seio. A assinalar a sua encarnação, apenas vem, aderente às secundinas, a respectiva bola de sangue (placenta). Tais seres chamam-se «gêmeos de quilamba fadado» (ngongo ia kilamba kia xinimavu).
Noutros casos, ou porque um dos entes não quis, ou porque o outro não pretendesse a sua companhia, só nasce um indivíduo. Tal gêmeo denomina-se «gêmeo solitário» (ngongo ia muende ia ubeka).
Noutros casos ainda, os gêmeos também podem ser concebidos em ventres diferentes, apenas irmanados pela mesma paternidade. O fenômeno resulta de os ditos seres provirem do ramo paterno, induzidos, não simultaneamente, como, em regra, acontece, mas em períodos desiguais.
Aclaremos o mistério. Os gêmeos, no seu seio constituindo os gênios, quando simpatizam com alguém — homem ou mulher — incorporam-se-lhe para efeito de reprodução. Mas, como já se viu, nem sempre ambos os entes gostam da mesma criatura, pelo que, à hora do parto, ainda discutem se devem matar o pai ou a mãe, ou então voltar para o seu mundo. No primeiro caso, encarnam efetivamente os dois ocorrendo a deliberação no ventre materno; no segundo, dado o repúdio ou a antipatia imediata, só encarna um, continuando o outro na sua mansão; mas, no terceiro, o que não quisera acompanhar o outro, mais tarde, movido pelo arrependimento, decide-se então a incorporar-se no mesmo indivíduo.
A primeira manifestação de geminação, pela sua evidência, é logo reconhecida pela parteira assistente. Nas outras duas, porém, dado o mistério da encarnação, só divinatoriamente se conhece a procedência de tais filhos. Posto que qualquer dos entes assim gerados pertença à mesma espécie espiritual, o segundo — o gêmeo solitário — em preceitos respeitantes aos gêmeos, ainda é mais exigente do que os concebidos diferentemente.
Dada à extrema sensibilidade de tais seres, a mãe, no leito, deve dormir entre ambos, a fim de cada qual fruir a mesma identidade de contacto. Quando nascem, um rancho de gêmeos, sob a glorificação de cânticos alusivos, colhe, no campo, abundante folhagem de musséquenha e mulembuíji. Aí, com essa verdura, «vestem-se» liturgicamente: ao peito, em X, impõem dois boldriés; na cabeça, uma coroa; ao pescoço, um colar.
Assim paramentados, vão homenagear os recém-nascidos, aos quais, sempre debaixo das hosanas alegóricas, lhes oferecem a rama, depondo-a na cama e ornando-a com festões, permanecendo o brinde, ou antes, a veste simbólica, até murchar. Enquanto cantam, palmejam e batem com os pés no chão.
Quando falecem, idêntico cerimonial se efetua. O cadáver, igualmente «vestido» com os demais irmãos espirituais, assim é encerrado no caixão, acamado no fundo com nove coroazinhas de musséquenha e outras tantas de mulembuíji, e, em redor, com cordões das mesmas plantas. Com as mesmas insígnias, também se prepara a mãe e o outro gêmeo irmão. Antes do funeral, a mãe-de-umbanda, com um galho de mulemba, esparge o morto com discosso, exorcismando:
— Já foste colher. Agora deixa saúde ao que ficou. Não venha afligir ninguém com doenças.
Antigamente, o grupo de gêmeos, sob os mesmos hinos e manifestações de mãos e pés, assim acompanhava o féretro ao cemitério. Hoje tal só se observa nos lugares mais recônditos.
Entretanto, para que a alma repouse em paz, realiza-se, mais tarde, o enterro místico. Mais tarde, porque o ritual acarreta bastante despesa. Num quintal, sobre uma esteira, onde se estendeu um metro de pano branco, coloca-se uma almofadinha, duns quinze centímetros de comprimento e dez de largura, envolvida parcialmente por um retalho. Essa almofadinha, contendo serradura de bamba-údi-údi, de quissécua, de quicongo, óleo de palma, mel, fragmentos de pena de garça e de andua, crina de elefante e sebo de caça, simboliza o defunto.
Como no dia do passamento, alguns gêmeos, paramentados ritualmente, entoam os cânticos alusivos. A mãe-de-umbanda, com os dentes, arrasta a esteira para junto dum buraco e sepulta a efígie entre duas camadas de musséquenha e mulembuíji. Depois, perto de casa, planta um embondeiro.
No caso de falecimento, o gêmeo sobrevivente passa a usar ao pescoço uma egígie representativa do irmão, denominada «pongo», isto é, gêmeo. Como esses filhos não admitem preferências por parte dos pais, portanto recebendo ambos os mesmos carinhos, as mesmas vestes, os mesmos alimentos, tal amuleto continua a exigir iguais atenções.
Assim, quando se dá roupa nova ao sobrevivente, o ídolo, que fica envolvido num saquinho, exceto a cabeça, também recebe a sua parte: ou o cobrem com um retalho do tecido do vestuário, ou cosem ao invólucro um bocadinho do mesmo. E em certos festins místicos, como a «mesa» propiciada aos guias tutelares — meza ma miondona — ao amuleto igualmente se dá a comida, ou pela mãe-de-umbanda, se o paciente for pequenino, ou pelo próprio, se já for crescido. E quando o sobrevivente casar, deverá, em ritual apropriado, comunicar o fato ao extinto.
A efígie é usada até à morte. Quem, por acanhamento, não a puder trazer ao pescoço, guarda-a religiosamente, dispensando-lhe, no entanto, os cuidados referidos.
Fonte: Ribas OSCAR. Ilundo – Divindades e Ritos Angolanos
(*) Elizabeth B.Azevedo é graduada em Ciências Econômicas e pós-graduada em Matemática Financeira. Iniciada no candomblé em 1986, filha de Danguesu, neta de Saralandu, bisneta de Kianvulu e atualmente filha do Tumbalê Junçara-BA.
