É com imensa satisfação que vimos assistindo ao ressurgimento de certas manifestações da cultura angolana. Ressurgimento – repetimos – pois elas, em conseqüência da fogueira da civilização, cruelmente foram lançadas no monturo do desprezo, para depois sofrerem a resultante combustão.
Enquanto nos países cultos se incrementa a herança tradicional, em Angola, pelo contrário, repudia-se atrozmente, considerando-se como atrasados os indivíduos que a observam. Por efeito de tal barbaridade, gerou-se no espírito do nativo um sentimento de vergonha, e mesmo de inferioridade, por quanto respeita ao seu patrimônio cultural.
Com tristeza, vimos, pois, ser qualificado de indigno o produto das mais belas concepções do povo, como a sua própria língua, os seus cantares, os seus bailados, as suas iguarias, tudo, enfim, o que lhe pertence. Falar a sua língua natal, comer as suas iguarias regionais, folgar dentro do seu gênio criador, tornaram-se-lhe coisa feia, baixa, simplesmente recriminável.
Na Baixa de Kasanje, aonde um intelectual havia ido em 1961 em missão de estudo, verificou ele que o indígena já não queria tocar os seus instrumentos típicos. Instado para que executasse algumas músicas, a medo perguntou se não era mal tocar tais coisas!
Se todos os povos possuem os seus instrumentos peculiares, por que incutir-lhe idéias destituídas de senso? Se os povos ditos civilizados se comprazem em se recrear à sua maneira, por que levantar-lhe barreiras que se não alicerçam na solidez da razão?
Por essa altura, em Luanda, uma garota da camada popular havia negado a uma senhora européia saber o quimbundo. Admoestada por uma senhora africana que já a tinha ouvido falar na sua língua materna, embaraçadamente se desculpou:
– Antão num é vergonha dizer sabe quimbundo?
Nessa época também, distintíssima senhora brasileira estranhou que, ao contrário do que se praticava no Brasil, os restaurantes locais, e mesmo boates, não fornecessem pitéus regionais. Não para serem vendidos por uma ridicularia, mas pelo preço de autêntico pitéu. Lá – esclarecia a ilustre senhora – pode-se saborear um quibebe à saída de um espectáculo. E por que não acontece cá o mesmo? Sim, cá, com idênticas características que as de lá!
Nesse país, cujo movimento cultural temos acompanhado com interesse, procede-se, e activamente, à busca das raízes de suas tradições. Com surpresa, ou antes, mágoa, constantemente verificamos a fundação de centros regionalistas, lá designados por pagos. É que o Brasileiro, na sua cada vez mais apurada consciencialização, sabe bem o valor do culto das tradições.
“TRADICIONALISMO” não é “carnaval de cores regionais”, não é mero conjunto de vazias exterioridades, não é simples reconstituição de cenas típicas do viver de nossos avós, pelo gosto do pitoresco, não é unicamente oportunidade de reconstruir danças, práticas e modas de antanho.
Tradicionalismo pouco seria, se só isto fosse. Mas não. Antes de ser entidade social, há-de ser vivência íntima, há-de ser instituição afetiva e moral no coração dos que o praticam, há-de ser retomada de consciência de nossas reversas morais e cívicas, há-de ser a busca de nossas próprias raízes. São as tradições que dão carácter, personalidade e colorido aos povos. São elas que conferem policromia à paisagem humana, nos diferentes meios geográficos. São elas, ainda, que constituem a pedra e o cimento em, que se alicerça a alma das nações.
“Não há nação que não se fundamente na herança ancestral dos costumes e da cultura” – assim dissertou o Dr C. Fernando Figueira Soares – em Jornal do Dia, de Porto Alegre (Brasil), na edição de 28-8-1960.
Dado o ressurgimento das tradições angolanas, importa que nós angolanos, afincadamente trabalhemos nesse sentido. Evitemos que insensatamente se aniquile o que arduamente se constituiu através de milénios! Deste modo, contribuiremos para a salvaguarda do tesouro cultural de Angola.
Sem desprimor para os obreiros da cultura europeia, aprendamos todos, a par da língua portuguesa, a língua do berço angolano. Se os estrangeiros, em suas universidades, estudam – e com profundidade – as línguas africanas, porque razão nós, os seus verdadeiros donos, as havemos de menosprezar? Haja lucidez de espírito!
Combatam-se as práticas contrárias à ética, mas preserve-se o ofensivo, aquilo que de nenhum modo afeta a salubridade moral.
Fonte: RIBAS, Oscar. Temas da vida Angolana e suas incidências.
(*) Elizabeth B.Azevedo é graduada em Ciências Econômicas e pós-graduada em Matemática Financeira. Iniciada no candomblé em 1986, filha de Danguesu, neta de Saralandu, bisneta de Kianvulu e atualmente filha do Tumbalê Junçara-BA.
