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Variedades: Malungo Monakô

Nibojí, 21 de novembro de 200815 de agosto de 2012
Texto extraído da revista KÀWÉ – Universidade Estadual de Santa Cruz – Ilhéus, Ba – adaptado por  Mam’etu Nibojí(*) 

 

O Kàwé, enquanto um grupo de pesquisadores, está voltado para o estudo sobre o negro e a cultura afro-brasileira na área de influência da UESC. É próprio do Kàwé contribuir para a significação do lugar que a cultura de matriz africana ocupa na constituição dos saberes da Região Sul da Bahia. Aqui, fazem uma justa homenagem a Mam’etu Percília da Costa Nascimento, também conhecida pelo seu nome africano de Malungo Monakô, que se fixou no Pontal, ainda nos tempos da Segunda Guerra. O texto não é uma biografia, até mesmo porque a equipe responsável não conseguiu ter acesso a informações mais detalhadas sobre a vida pessoal da notória Mam’etu.

Vale explicar que a preocupação da Equipe Kàwé centraliza-se nos eventos que, a partir do trabalho do terreiro dirigido por Malungo Monakô, propiciaram mudanças no Pontal. A referida Mam’etu também é tomada aqui, como um indicativo para se pensar o mundo dos terreiros em Ilhéus, suas origens e participação efetiva com a comunidade mais ampla.

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O mundo estava mergulhado na Segunda Grande Guerra. Naquele período, o povo-de-santo também enfrentava outra guerra, igualmente cruel: o preconceito oficial movia severa perseguição contra os terreiros de candomblé. Na Bahia, não foi diferente: havia a forte determinação de se eliminar, da cultura baiana, as marcas da africanidade. Assim, muitos pais e mães-de-santo, principalmente aqueles mais novos, deslocaram-se para outras regiões. Percília da Costa Nascimento preferiu se mudar para Ilhéus que, naquele tempo, era a capital do cacau.

Ela veio para a terra do cacau, com a finalidade de fundar um terreiro-de-angola. Durante os dois primeiros anos, fixou residência no Outeiro de São Sebastião, onde começou a exercer as atividades de mãe-de-santo. Depois, mudou-se para o Pontal, onde fundou o terreiro de candomblé.

Ocorre que a maioria dos moradores daquela localidade vivia uma cultura que era adversa aos costumes afro-brasileiros e rejeitava, por isso mesmo, o povo-de-santo. Além do mais, o terreiro tinha a liderança de uma mulher, que era negra, mãe-de-santo e novata no lugar. Esses atributos já eram suficientes para que a nova comunidade tivesse de enfrentar as consequências dos vários preconceitos. Se o momento mundial era de guerra, o terreiro também teve de enfrentar essa outra guerra particular. A sua luta, no entanto, foi calcada a partir de valores coletivos, pois essa é uma das características do povo-de-santo, do viver e do fazer nos terreiros de candomblé.

A nova comunidade exercia práticas de vida do candomblé de angola e, por isso mesmo, realizava muitas festividades. Anualmente, entre outras comemorações, no dia dois de julho, o terreiro promovia o famoso samba do Caboclo Jinitiá. Eram três dias com três noites de samba-de-roda, e muitos moradores do Pontal tornaram-se frequentadores assíduos da festa. O dia dois de julho, considerado data de comemoração da independência da Bahia, passou a ter também uma outra forma de ser comemorada no Pontal: o samba-de-roda em homenagem aos Caboclos, no Terreiro de Dona Percília. Isso concorreu para que fossem se criando possibilidades de interação entre grupos sociais diversos.

Alguns acontecimentos foram importantes para a evidência do terreiro em suas relações com a comunidade mais ampla. O primeiro deles teve implicação direta com o momento de guerra que estava sendo vivido e o movimento de tropas militares em Ilhéus, que era intenso. E num dia de festa para Ogum, a divindade da guerra, muitos soldados vieram visitar o candomblé. Quando Ogum se manifestou, alguns soldados caíram em transe. Isso foi motivo para comentários que se alastraram, e a população interpretou o fato como uma demonstração da força mágica do terreiro.

Um outro fato marcante envolveu o terreiro, a polícia civil e um oficial do exército. Uma moça de família proeminente, repentinamente, viu-se possuída por um espírito malígno, terrível, que promovia desordens e eventos fora do comum, quando se manifestava nela. O caso tornou-se público e foram inúteis todas as ações de exorcismo por parte de religiosos das mais diversas correntes. A moça terminou sendo trancafiada na cadeia, por medida de segurança. Não tendo mais para quem apelar, a família da moça obsedada recorreu ao terreiro. Com o consentimento do delegado da época, numa cerimônia pública, o pessoal do terreiro se apresentou para fazer um exorcismo afro-brasileiro, na própria delegacia de polícia. A cela foi aberta e o espírito, manifestado na moça, submetido a interrogatório, para conhecimento do que se tratava. O espírito mau confessou que aquela moça, às escondidas, era amante de um sargento, pessoa de renome no Pontal. E ele, o espírito malfeitor, estava ali, a mando da esposa do sargento, para se vingar. Revelou como o fato tinha se dado e o que ele tinha ganho para fazer aquele mal. A mãe-de-santo fez o exorcismo e retirou o espírito malígno. A moça, famosa por sua beleza, se recuperou daquela atribulação para sempre.

Esses dois fatos se somaram e também concorreram para que tanto o terreiro, quanto Percília passassem a ser respeitados na região. A partir dessa época, a dijina de Malungo Monakô, o seu nome ritual, tornou-se conhecida e divulgada. Enquanto isso, muitos participantes de outros pequenos terreiros da vizinhança passaram a frequentar o terreiro de Percília. Os que se transferiram viam nela mais fundamento e, naquele outro terreiro, encontravam novas oportunidades para vivenciar um outro modelo de relacionamentos. Isso rendeu ao terreiro de Malungo Monakô algumas desavenças, promovidas entre ela e dirigentes de outros terreiros, de onde alguns fiéis se evadiam. Ela, no entanto, defendia o recém-chegado a seu terreiro, mesmo que isso sacrificasse certas parcerias.Tudo isso demonstra que Malungo Monakô sabia lidar com estruturas de poder e as atividades de seu terreiro contribuíram para modificar o modo de pensar das pessoas.

Tempos depois, quando a guerra já tinha acabado, Malungo Monakô comprou um sítio numa localidade denominada Santo Antônio, após o Couto, e transferiu o terreiro para lá, embora ela continuasse a residir no Pontal, na sua antiga casa-de-santo. A inauguração do novo terreiro, em Santo Antônio, aconteceu com uma festividade que abalou a redondeza. E quando Malungo Monakô festejou seu jubileu de ouro de iniciação, já estava rodeada por muitos netos, e o nome do terreiro estava firmado na Região do Cacau. Ela soube, no entanto, aliar a convivência familiar com as obrigações do terreiro e também com os relacionamentos mantidos na comunidade, mais ampla.

No Pontal, não havia médico nem posto de saúde, naquela época. Pontal era apenas um arrabalde de Ihéus, preferido pelos veranistas nos períodos de férias, que iam lá, apenas para gozo e descanso, mas sem investirem no local. Os moradores sofriam terríveis consequências, resultantes da falta de cuidados por parte dos governantes municipais. Enquanto isso, era grande a afluência ao terreiro, que rezava e receitava, curava e ajudava, confortava e acudia, tornando-se um ponto de referência, para onde acorriam muitos dos que estavam necessitando de ajuda.

O Pontal aprendeu a devotar respeito, amizade e confiança naquele outro tipo de comunidade. O número de conhecidos, amigos, compadres, comadres, afilhados, fiéis, adeptos e simpatizantes continuou sendo construído ao longo do tempo. E como entre o povo-de-santo, tudo tem dois lados, o terreiro também foi muito temido, principalmente pela magia que dominava. Mas foi justamente por isso, por resumir em si esses dois lados, que o terreiro de Malungo Monakô teve condições de ajudar a desbravar e construir o Pontal.

Já em idade avançada, Malungo Monakô se foi, após um terceiro enfarto do miocárdio. Sua filha Conceição, também conhecida como Ancialu, assumiu o cargo de dirigente do terreiro. Seu mandato, no entanto, foi breve, pois Ancialu também se foi. Atualmente, seus herdeiros vêm conduzindo as obrigações no terreiro do Pontal, pois o terreiro do Santo Antônio, após o falecimento de Ancialu, foi desativado.

Os sucessores de Malungo Monakô continuam o seu trabalho até hoje, à frente de novos terreiros, tanto no Pontal, quanto em outros lugares no país, todos ligados à mesma raiz do candomblé de angola. Isso confirma os valores dos que vivenciaram o culto afro-brasileiro no antigo Pontal, cuja prática superou o pós-guerra, mudou costumes, além de se espalhar por outros espaços, para além das fronteiras de Ilhéus.

Embora sua linhagem não se perdesse, Malungo Monakô levou consigo o porte de rainha, as atitudes de guerreira e os braços maternais que envolveram o Pontal e impulsionaram a herança do candomblé de angola, na Região Sul da Bahia.

(*) Elizabeth B.Azevedo é graduada em Ciências Econômicas e pós-graduada em Matemática Financeira. Iniciada no candomblé em 1986, filha de Danguesu, neta de Saralandu, bisneta de Kianvulu e atualmente filha do Tumbalê Junçara-BA.

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