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História e Cultura: Mahamba

Nibojí, 19 de novembro de 200815 de setembro de 2014
Mam’etu Nibojí (*)

 O vocábulo Mahamba (sing. Hamba), em tutchokwe, designa o conjunto de seres espirituais, antepassados, transmutações da forma, espíritos dos ancestrais, possessão de espíritos e todos os fetiches ou amuletos que os representam. Os Tutchokwe dão ainda o nome hamba a qualquer coisa que se refira a sinalização. Às estatuetas que representam os espíritos ou fetiches, dão também o nome de kaponya. Assim, podemos considerar três espécies de Mahamba:

a) A que designa os fetiches. As imagens dos nossos santos são, para eles, Mahamba.

b) A que designa os espíritos.

c) A que indica o estado de possessão de qualquer espírito bom.

Os espíritos malignos, entre os povos da Lunda, não são objetos de possessão. Estes podem fazer mal e atormentar as pessoas ou dar-lhes a morte, por isso, não são considerados Mahamba, mas sim Ipfupfu (espíritos malignos ou demônios). Estes envolvem só o corpo das pessoas pela parte exterior.

Convém esclarecer que, entre estes povos, nem todos os espíritos conseguem alojar-se, segundo eles crêem, no corpo das pessoas vivas. Só um reduzido número é que consegue fazê-lo.

As restantes Mahamba são fetiches de potência, fecundidade ou caça e contentam-se com pequenas rezas e sacrifícios.

Quando algum katchokwe se sente doente ou possuído de qualquer espírito, vai ao adivinhador que diagnosticará a doença e qual o espírito que a provoca, visto que, para os nativos mais primitivos, todas as doenças são provocadas por feitiços ou espíritos e raras vezes são naturais ou dadas por Nzambi.

Diagnosticada a doença e qual o feitiço ou espírito que a provoca, o adivinhador indicará qual o tratamento a fazer.

Estado de possessão

Tratando-se de qualquer espírito que necessite de exorcismos, para que abandone o corpo do paciente, se o adivinhador não for competente para fazê-los, indicar-lhe-á um tchimbanda (médium) que seja perito no assunto. Quando se trata do Ngombo só o próprio tahi poderá exorcizá-lo.

No dia combinado, geralmente à tarde ou à noite, o paciente, em tronco nu, senta-se sobre uma esteira, junto de uma fogueira. Tratando-se de Ngombo (espírito de adivinhador antepassado), este não é obrigado a deixar o corpo do paciente onde está alojado, mas sim a fixar-se na cabeça do mesmo, para que lhe dê sabedoria e poder de adivinhar.

Em todos os outros casos, o espírito é obrigado a sair do corpo onde se alojou para que o doente fique bom. Para isso, o tchimbanda passa e volta a passar, desde os pés até à cabeça do paciente, a pele de chimba (cervo), dizendo — tueya, vem — sai.

Depois de tudo preparado, com grande assistência sentada em volta do paciente, começam as canções adequadas a cada exorcismo, acompanhadas do toque compassado e ensurdecedor dos instrumentos de bateria, ngoma e tchinguvu (tambor de fenda). O tchimbanda canta uma canção e toda a assistência a repete.

Depois, canta outra e outra, e os cânticos sucedem-se até criar no paciente um estado de excitação tal, que todo o corpo entra em convulsão e o obriga a fazer movimentos rítmicos, apenas com o tronco e membros superiores. Começa com pequenos e lentos movimentos, os quais vão aumentando, mais e mais, ao mesmo tempo em que solta gritos abafados ou sons mal articulados.

Este estado intensifícar-se-á, enquanto aos cantos da boca se vai juntando alguma saliva, que expele de vez em quando, concomitantemente com um grito ou ronco surdo e cavo. Os olhos, injetados de sangue e abertos desmedidamente, fixam o tchimbanda que, por sua vez, fixa o paciente. Este começa então a suar e a executar movimentos cada vez mais rápidos até cair em êxtase.

Atingido este estado, depois do tchimbanda lhe dar a comer o ndombo (amendoim ou mandioca, sal e pemba), o doente é levado para fora da assistência a fim de interrogar o espírito.

Chegado ao local, geralmente no término da aldeia, o tchimbanda pergunta quem é, como, onde e quando se alojou no corpo do doente.

Estas operações são repetidas até que todas as Mahamba (espíritos), que estavam alojados no corpo do paciente, tenham saído o que se verifica se o doente não reagir após o tchimbanda ter cantado dez canções. Mas, se isto não bastar, o próprio tchimbanda chama a si o espírito seu guia. Este lhe dirá se sim ou não todos os espíritos já deixaram o doente em paz.

Quem já assistiu a estes ritos e conhece os médiuns, os «espiritados» ou «endemoninhados» que, por vezes, aparecem, nalgumas sociedades civilizadas, poderá concluir que há muita semelhança entre aqueles possessos e os nativos atacados de Mahamba.

Fonte: Martins, João Vicente. Crenças, Adivinhação e Medicina Tradicionais dos Tutchokwe do nordeste de angola.

(*) Elizabeth B.Azevedo é graduada em Ciências Econômicas e pós-graduada em Matemática Financeira. Iniciada no candomblé em 1986, filha de Danguesu, neta de Saralandu, bisneta de Kianvulu e atualmente filha do Tumbalê Junçara-BA.

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