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Variedades: Kwanzaa

Nibojí, 30 de novembro de 200823 de outubro de 2011

Kilegi

“Muitos dos nossos Irmãos/Sobrinhos, Primas e Amiga(o)s que acompanham as minhas toscas garranchadas nesses quase dois anos de diário eletrônico zéricardiano sabem que sou formado em História e trabalho com isso, mas poucos sabem sobre a minha fascinação desde criança pela África, a ponto de hoje eu ser conhecido entre meus os colegas de profissão como um dedicado (eles que dizem, eu discordo) “africanista”.

 Num desses muitos Encontros, Seminários, Simpósios de História, e em específico sobre o tema África, uma ocorrida lá pelos idos de 1996 ficou-me na lembrança quando o palestrante falou superficialmente sobre uma festa chamada Kwanzaa. Logo depois tomei a iniciativa de pesquisar sobre essa festa achando tratar-se de mais algum exotismo tribal/antropológico. O que afinal é isso?

Pois bem, Kwanzaa é uma comemoração afro-americana que começa no dia 26 de dezembro e termina no dia 1º de janeiro, que envolve a reflexão sobre sete princípios básicos, a valorização da comunidade, das crianças e da vida. Esta celebração encontra-se lentamente se espalhando pelos Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Caribe e já se pode enviar cartões aos amigos desejando-lhes “Happy Kwanzaa!”

Pesquisando a palavra “Kwanzaa”, descobri que ela é uma palavra swahili (pronuncia-se “suarrili”), uma belíssima língua bantu, oficial do Quênia e da Tanzânia, língua nacional da República Democrática do Congo (antigo Zaire) e segunda língua corrente no Burundi, Ruanda e Uganda.

“Kwanza” (sem o último a) é o nome do principal rio de Angola e “cuanza” é a sua moeda e unidade monetária. Mas “Kwanzaa” tem um significado muito bonito e rico. A palavra significa “o primeiro, no início” ou, ainda, “os primeiros frutos”, e pertencem a tradições muito antigas das celebrações de colheitas na África. E foi ela a escolhida, por todas as suas importantes significações e tradições, para representar esta celebração construída e inventada, por um único homem, há 37 anos atrás.

Maulana Karenga é professor e militante negro, atual diretor do Departamento de Estudos Negros da Universidade da Califórnia. Toda a celebração e todos os rituais da Kwanzaa foram concebidos após as famosas e terríveis revoltas de Watts, em 1966. Ele buscou nas remotas tradições africanas valores que fossem cultivados pelos negros americanos naqueles sinistros dias de lutas pelos direitos civis, de assassinatos de seus principais líderes e que, não sendo religiosos, pudessem atrair – como de fato atraíram – todas as igrejas de todas as comunidades negras em todo o país e, no futuro, pelo mundo afora. Karenga organizou a Kwanzaa em torno de 5 atividades fundamentais, comuns às celebrações africanas da colheita das primeiras frutas:

– a reunião da família, de amigos, e da comunidade; – a reverência ao criador e à criação, destacadamente a ação de graças e a reafirmação dos compromissos de respeitar o ambiente e “melhorar” o mundo;

– a comemoração do passado honrando os antepassados, pelo aprendizado de suas lições e seguindo os exemplos das realizações da história; – a renovação dos compromissos com os ideais culturais mais altos da comunidade como a verdade, justiça, respeito às pessoas e à natureza, o cuidado com os vulneráveis, e respeito aos anciões;

– a celebração do “Bem da Vida” que é um conjunto de luta, realização, família, comunidade e cultura.

O professor Karenga diz que “(…) a Kwanzaa é celebrada através de rituais, diálogos, narrativas, poesia, dança, canto, batucada e outras festividades”. Estas atividades devem demonstrar os sete princípios, ou Nguzo Saba em swahili:

1 – umoja (unidade, em que é salientada a importância da vivência em comunidade);

2 – kujichagulia (autodeterminação,em que as opções de cada indivíduo devem ser tomadas tendo em consideração os interesses da família e da comunidade);

3 – ujima (trabalho coletivo e responsabilidade em que deve estar sempre presente a obrigação para com o passado, o presente e o futuro; recordando que temos um papel a desempenhar na esfera da comunidade, sociedade e a nível mundial);

4 – ujamaa (economia cooperativa, que simboliza o esforço coletivo para se alcançar as necessidades comuns);

5 – nia (propósito, em que se deve estabelecer objetivos pessoais, que também servem a comunidade);

6 – kuumba (criatividade, para ultrapassar problemas e dificuldades), e por fim;

7 – imani (fé).

Lembrando o candelabro judaico do Chanucá, a cada dia do Kwanzaa uma vela de cor diferente, representando cada princípio do Nguzo Saba, deve ser acesa em um altar onde são colocadas frutas frescas e uma espiga de milho para cada criança que houver na casa. Depois de acesa a vela, todos bebem de uma taça comum em reverência aos antepassados, e saúdam com a exclamação Harambee! que tanto pode significar “reúnam todas as coisas” ou então “vamos fazer juntos”.

A grande festa é no dia 1° de janeiro, quando há muita comida, muita alegria e festa, onde cada criança deve ganhar três presentes que devem ser modestos: um livro, um objeto simbólico e um brinquedo. Eu achei sensacional a idéia do professor Karenga! Mas que grande festa é a Kwanzaa! Ele é cheia de alegrias e significados, não pertence a nenhuma igreja ou religião, mas sem negar ou excluir a nenhuma fé, com ótimas receitas, boa bebida e muita fruta, com presentes e rituais, porém, até onde eu saiba, sem possuir aquela horrível supercomercialização como a que torna a nossa festa cristã em algo banal e sem sentido.

Apenas alegria e humanidade em torno de valores e significados permanentes sobre os quais nós temos que refletir e trabalhar. Adorei essa festa proposta por um homem perplexo pelos dramas de sua geração, mas inconformado e movido por seus desafios. É uma festa moderna e ao mesmo tempo tradicional, africana e ocidental, negra e americana, ancestral e urbana, musical, encantada e familiar. É também uma lição de como usamos a História para encontrar respostas aos desafios do presente. Meus Irmãos/Sobrinhos, Tios, Primas, Amiga(o)s me permitam esse ano fugir do óbvio e desejar a todos vocês os meus sinceros votos de Unidade, autodeterminação, trabalho coletivo e responsabilidade, economia cooperativa, propósito, criatividade, e fé.

Feliz Kwanzaa para você e toda a sua família!

Harambee! por CarlosTeles * 23/12/2004 – 03:27″Fonte:http://www.ee2.rg3.net/ Escritos empoeirados – 01/12 a 31/12/2004

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