Assim é o culto aos Mukixi/Minkisi – Um Todo que em hipótese alguma se totaliza sem as várias vertentes que caracterizam as suas tradições. E, mais complexo ainda é o advento denominado Candomblé, – heterogêneo, macro, surgido de diversas partes que até hoje não foram unidas a fim de se chegar ao Todo. E que pena! Será que eternamente viveremos a utopia, a expectativa da comunidade perfeita ou ideal capaz de servir de modelo à outras comunidades religiosas!?
Desejos, Idéias e Ação não se misturam. O fato de desejarmos, enquanto idéia, em nenhum momento se caracteriza ação. A idéia da bondade não inviabiliza totalmente a maldade, mas, apenas minimiza este ato. No máximo, poderíamos dizer que a idéia de bondade seria uma contraposição ao ato de maldade, nada mais que isto. Mas, mesmo assim, não consideramos esta uma condição definitiva, posto que, ao manifestarmos o desejo, a idéia, estamos externando a força e a vontade de agir, de buscar e de resgatar.
Necessitamos urgentemente dar ênfase ao íntimo e verdadeiro desejo de mudar. Precisamos colocar em prática as nossas idéias, transformando-as em atos reais. Não são poucos os que demonstram o seu descontentamento e desamor pelas milongas e, conseqüentemente, pelos milongueiros – aqueles que misturam ou se utilizam da mistura para referendarem os seus cultos e ritos. Muitos preconizam suas teorias; expressam os seus exercícios práticos; pregam a excelência de seus feitos, como se esta fosse a única solução a ser procurada, a única verdadeiramente eficaz; a expressa e inquestionável Verdade.
Mas, como partes desse Todo, temos o direito e a obrigação de questionar certas idéias, já que estas, muitas vezes, são moldadas equivocadamente; elaboradas para um contexto que nega a realidade, e, portanto, nada mais são do que sementes plantadas sem sucesso. Sementes que não têm vida, pois negam a verdade, vez que omitem as partes que as constituem. E é nesta hora, quando lhes parece faltar a vida e não mais respirarem, que surgem outras possibilidades e esta pode, como num ato de magia, ressurgir.
O resgate das tradições bantu é indubitavelmente viável. Sabemos que as possuímos e que a partir delas temos total condição de tornar real a identidade dos cultos afro-bantu. Os caminhos já se mostram e se moldam. São evidentes, e aos poucos têm se revelado percurso sem volta. Exemplo disso são os trabalhos, pautados nas pesquisas (incessantes buscas) por alguns expoentes. Mas, da mesma forma que surgem as possibilidades, as dificuldades também se mostram. Falta-nos conscientização, vontade e organização. A tradição bantu não desapareceu, apenas se encontra adormecida, e aos poucos conseguiremos acordá-la. Um tanto mais radical, porém, não menos convicto, mostra-se o Tata Katuvanjesi ao afirmar, “Angola-Kongo possui tradição e se objetivamos resgatá-la tem que ser de forma radical”.
Concordamos amplamente com ambas as posições, mas, infelizmente, pela falta de união, pelo egoísmo e vaidade de alguns, que teimam em tornar próprias a paternidade do feito, não estamos encontrando a forma ideal para referendá-las. Todavia, ao demonstrarmos tais desejos e expressarmos nossas idéias de apoio, examinando-os em si mesmos, parece-nos claro que, a médio e longo prazo, conseguiremos alcançar os objetivos pretendidos, e incansavelmente defendidos por aqueles que jamais acreditaram na perda, mas tão-somente se conformaram com o “adormecimento” temporário.
Mas, como um quebra-cabeças, jamais devemos ignorar ou desprezar as partes. Todos os caminhos, um a um, obrigatoriamente devem ser analisados a fim de que a Verdade, por meio da clareza inteligível e abstrata possa, pela força da ação prática, possa ser restabelecida e enfim assegurar o resgate desejado. Não se chega ao Todo sem que se una e se debruce detidamente sobre as partes. Por isso, se de um lado almejamos acordar o adormecido “tradicionalismo bantu”, de outro, jamais poderemos negar a mistura, pois, não somos nós os seus instituidores. Estas são caracteristicamente componentes dos cultos afro-brasileiros, que na sua essência descendem tanto das tradições nagôs quanto das bantu.
Unamo-nos, pois, com humildade e respeito, desprovidos das vaidades pessoais e do paternalismo egoísta, a fim de que possamos identificar e demonstrar o que se origina de cada tradição.
(*) Espedito Azevedo é filósofo, especialista em Administração Legislativa e Gerenciamento de Projetos. Iniciado por Jiboin diá Nzambi é hoje Tata Kisaba do Terreiro Tumbalê Junçara, dirigido por Tata Talamonakô.
