O mesmo ocorre quando lidamos com as plantas e com as pessoas. Cada um de nós é uma parte que se relaciona com o Criador. Podemos passar a vida inteira estudando os aspectos botânicos das plantas até nos tornarmos peritos na identificação de espécies, até conhecermos a fundo a química individual de cada planta e aprendermos a empregar efetivamente o seu potencial terapêutico na cura de enfermidades físicas. Podemos desenvolver experimentos científicos com elas, até obtermos espécies supostamente aperfeiçoadas. Podemos manipulá-las caseiramente e transformar algumas dessas espécies híbridas em produtos comercialmente rentáveis. Ibdo isto funciona bem e pode até proporcionar cura a algumas pessoas sob certas condições. Porém, adicionando um toque de espírito ao processo, ele se tornará muito mais poderoso.
Os Anciães nos ensinam que existe algo mais na terra e no céu do que aquilo que nossos olhos e mente captam. Suponhamos, por exemplo, que numa incursão pela Natureza, eu apanhe um graveto, passe-o a suas mãos e pergunte: “O que é isto?” Você automaticamente responderá: “É um pedaço de madeira”. Após alguns minutos eu replicarei: “Não, é um pedaço de árvore”. Percebe a diferença?
A tradição indígena nos ensina a enxergar as coisas como um todo e a tentar decifrar e compreender a relação entre as partes que compõem a totalidade. O modo como cada peça da Criação se relaciona com as demais. Para aprender a se tornar mais eficiente no uso das plantas de cura, devemos compreender que cada planta é uma espécie do todo. Um ser vivo, dotado de mente, corpo e espírito, que pensa, sente e pode até adoecer e fenecer. Seus quatro estágios de desenvolvimento evolutivo são comparáveis às quatro fases da existência de um ser humano — nascem, crescem, envelhecem e morrem, e a maior parte dos vegetais renasce para um novo ciclo de vida.
As plantas são entes como nós, que nascem em famílias e que possuem amigos e inimigos. Algumas trabalham individualmente, outras em coletividade. Possuem personalidades individuais que sofrem influências da química, da física e do pensamento mental-espiritual, o qual fica impregnado nelas. Uma planta feliz é uma planta saudável, uma planta infeliz não é sadia. As plantas em seu habitat selvagem são mais potentes e poderosas que as cultivadas domesticamente. Plantas colhidas em ambientes naturais são dotadas de propriedades curativas mais fortes, sobretudo se forem colhidas de maneira correta e na época adequada. Coletar plantas ritualisticamente ao som de cânticos, preces e com o devido conhecimento das fórmulas de comunicação, assegura a permanência do espírito da planta em seu corpo vegetal, o que a torna mais eficaz no tratamento de doenças.
(*) Espedito Azevedo é filósofo, especialista em Administração Legislativa e Gerenciamento de Projetos. Iniciado por Jiboin d’Nzambi é hoje Tata Kisaba do Terreiro Tumbalê Junçara, dirigido por Tata Talamonakô.
