Relacionarei, de forma divertida, porém não menos comprometida e responsável, as particularidades de algumas ervas de uso comuns no nosso dia-a-dia litúrgico e/ou enquanto propriedade medicinal.
PLANTAS: MITO, MAGIA E CRENDICES
O GIRASSOL processava um movimento de acompanhamento – em igual proporção –à movimentação do Sol no Céu.
IPOMÉIA – essa planta trazia consigo uma peculiaridade própria – as suas campânulas somente se abriam ao raiar do dia.
Para os índios peruanos o girassol representava, mítica e fisicamente, a encarnação terrena do Sol.
No Japão as “glórias da manhã” (IPOMÉIA), eram conhecidas como as “jóias do céu”, porque sua beleza atraía a deus sol de volta ao céu no amanhecer.
Apesar da variedade, a VERBENA (V. Officinalis) era usada em festas religiosas também na Roma Antiga e tinha como função a purificação de pessoas, casas e altares das divindades romanas.
O ALHO (instrumento de uso indispensável na magia branca) teria o poder de repelir forças malignas. Por isso ainda hoje é dado pelas chinesas, gregas e judias, de presente aos recém-nascidos, para afastar o mau-olhado.
A BELADONA (por sua tendência venenosa e narcótica), e por ter sumo tóxico e sedativo, era ingrediente primordial na mesa dos assassinos. Essa planta tornou-se conhecida como a mortal erva-moura; sobra da noite; baga de bruxa e baga de feiticeiro, entre outras.
ÁRVORE DAS CRACAS(árvore das bernacas) há uma crendice de que estas continham gansos como frutos. Ganhou destaque e tornou-se uma celebridade entre os que não se aventuravam pelo mar. (Diziam que estas viviam grudadas nos cascos dos navios). Tal crença, na Escócia, despertou um debate teológico que concluiu: “tecnicamente seus gansos são frutos, não aves. Por isso alguns cristãos decidiram que podiam come-los nos dias de jejun, quando a ingestão da carne era proibida”.
ÁRVORE DAS OVELHAS(Cítia – faixa entre o sul da Europa até a Criméia), também conhecida como árvore tártara das ovelhas. A árvore dava como fruto uma lã que superava os carneiros em beleza e excelência, e os nativos vestiam roupas feitas com ela.
Do subcontinente indiano vem (Datura metel – popularmente conhecida como TROMBETEIRA). Sua flor derrubava os passantes. O odor exalado por essa planta não chega ser fatal, mas pode ser um estupefaciente para os que o respiram. Ela contém escopolamina, alcalóide que atua como poderoso sedativo e soporífero. Outrora era usada pelos Thug (Sociedade secreta indiana) para drogar viajantes casuais, aos quais roubavam-lhes e depois os estrangulavam, em sacrifício, segundo esses relatos, à deusa Káli.
A MÍTICA DA MANDRÁGORA – essa erva, comum em toda a região litorânea do mediterrâneo, adquiriu a fama de ter poderes mágicos em parte devido a sua toxicidade. Ela pode implacavelmente ser uma matadora, mas também serve de importante fonte de medicamento.
Sua raiz, grossa e tuberosa, se assemelha a um pequeno ser humano. Tal semelhança veio a causar profundo espanto em alguns. Outro aspecto impressionante era o fato de a mandrágora ser uma planta fosforescente e às vezes, à noite, as substâncias químicas existentes em sua baga reagirem com o orvalho e emitirem uma luz clara. Esse fenômeno – hoje explicado pela ciência – era atribuído por nossos ancestrais a espíritos e formas mágicas.
Diziam ainda se tratar de um amuleto infalível contra demônios e/ou protetora contra ferimentos em combate. Considerado forte curativo para todo tipo de doenças, trazia sorte no amor, promovia a fertilidade, garantia uma pontaria perfeita e permitia o descobrimento de tesouros enterrados.
Uma outra celebridade no universo dos antigos seres humanos, e ainda hoje, era e é a MIRRA. Esta, quando queimada, libera uma fragância que se acredita agradar por demais aos deuses. No antigo Egito a mirra desempenhou um papel vital nas cerimônias religiosas. Pés desta planta eram propositalmente cultivados em torno dos templos.
Numa negociação semelhante as que realizavam entre portugueses e índios na época do descobrimento do Brasil, os egípcios trocaram um machado, uma faca e algumas miçangas, colares e anéis por ébano, marfim, ouro, canela, gado, macacos, cachorros, panteras, escravos, sacos de mirra e 31 mudas da planta.
Muitas foram as ervas submetida aos ritos de exorcismos pelos padres, em razão, segundo a teologia cristã, de terem sido usadas pelos antigos pagãos (antecessores do cristianismo) como ervas malignas. Tal qual a muitas outras plantas, o papel cristão do HIPERICÃO (hypericum perforatum), se relacionava com as origens pagãs. Sua cor dourada e o hábito de florescer na época do solstício de verão fizeram dela um totem dos adoradores do sol em todo o mundo antigo. Os romanos queimavam-na em fogueiras que faziam parte das comemorações do Dia do Verão. No cristianismo, como a planta era associada ao solstício de verão que acontecia por (volta do dia 21 de junho no hemisfério norte), e na mesma época, mais precisamente no dia 24 de junho, se comemorava o nascimento de São João Batista, decidiram, então, redirecionar a planta a esse mártir e a rebatizaram como ERVA-DE-SÃO-JOÃO. Antes proibida, mas agora rebatizada, a erva continuava sendo pendurada nas portas das casas para repelir demônios, bruxas e bruxarias, num costume enraizado nas crenças tidas como pagãs.
A MAMONEIRA, bafureira, baga, carrapateira, aturra, mamona, par-cristi, rícino (RÍCINUS COMMUNIS l.), acreditava-se que o óleo era laxante, extraído da semente da mamona, limpava a mente, assim como os intestinos. Há quatro mil anos, as sementes eram armazenadas em túmulos egípcios e, há quase dois mil anos, Dioscorides e Plínio fizerem referência ao óleo purgativo. Entre muitas outras utilidades, além de curar infecções de pele e prisão de ventre, na África e Europa, as folhas têm sido aplicadas nos seios de mulheres para estimular a lactação.
Litúrgico/ritualisticamente, as folhas servem para servir comidas a njila e nsumbu. O broto macerado serve para regar o fetiche de njila. Alguns dos nossos antigos, usando as sementes, costumam montar um cordão (rosário) que – como simpatia – sevem para ajudar na secagem do leite materno e também na cura de papos.
AMOREIRA BRANCA (Morus Alba) AMOREIRA PRETA (Morus nigra) Segundo Ornato José da Silva – Ervas Raízes Africanas – o bicho da seda se nutre de suas folhas para fazer a seda. Trata-se de uma planta utilizada nos ritos afros para a limpeza da inzo mvumbi. Aconselha-se cruzar todo o território da inzo com os seus pés, se possível cercando toda a extensão. Suas folhas têm o poder de captar, a partir do raiar do sol, toda a negatividade que será expelida à noitinha, logo após este se pôr.
Fontes: Manual de Identificação e Controle de Plantas Daninhas / Lorenzi, Harri.
Plantas que curam / Grupo de Comunicação Três S/A.
Segredos e Virtudes das Plantas Medicinais / Reader’s Digest
(*) Espedito Azevedo é filósofo, especialista em Administração Legislativa e Gerenciamento de Projetos. Iniciado por Jiboin d’Nzambi é hoje Tata Kisaba do Terreiro Tumbalê Junçara, dirigido por Tata Talamonakô.
