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História e Cultura: A Criação do Mundo

Nibojí, 18 de novembro de 200815 de agosto de 2012
Mam’etu Niboji (*)

  Nota do autor – Lenda tradicional e oral do grupo LUNDA-TCHOKWE sobre a sua ascendência divina e criação do Universo. Segundo a história tradicional e oral, que o Autor ouviu, da boca dos mais idosos e categorizados chefes destas duas tribos, Lundas, Tutchokwe e todos os povos negros descenderiam dos Bungus e estes directamente do NZAMBI (Deus supremo da mitologia tchokwe). Eis pois, tal como nos foi contada, a história da criação do Universo e a ascendência divina destes povos.

O Nzambi,[1] a quem também chamam Ndala Karitanga (Deus que se criou a si próprio) e Sá Kalunga (Senhor infinitamente grande, Deus supremo e infinito), depois de ter criado o Mundo e tudo quanto nele existe, criou uma mulher para que fosse sua esposa e para que, por seu intermédio, pudesse ter descendência humana, a fim de que esta povoasse a Terra e dominasse todos os animais selvagens, por ele também criados. Disse a sua esposa que passaria a chamar-se Ná Kalunga, em virtude de a filha que iria dar à luz, se chamar Kalunga.[2]

Com efeito, tal como o Nzambi tinha anunciado, passados nove meses, nasceu sua filha Kalunga. Esta foi crescendo como qualquer criança normal junto de seus divinos pais, na tchehunda tcha Nzambi (aldeia de Deus).

Logo que sua filha atingiu a puberdade, o Nzambi, seu pai, informou Na Kalunga, sua esposa que tencionava fazer uma caçada, durante os três meses da época seca e que, para não ir sozinho, levaria sua filha com ele.

Esta resolução não agradou à divina esposa que tentou opor-se a que sua filha o acompanhasse. Porém, o Nzambi lembrou-lhe que ela tinha sido por ele criada para lhe obedecer, visto que, além de seu marido, era também seu Deus.

Contrariada, mas impotente para obrigar o esposo a desistir do seu intento, limitou-se a deixar ir a filha com o pai, enquanto ela ficou a chorar amargamente.

Logo que chegaram ao local escolhido para a caçada, o Nzambi, instantaneamente, construiu uma palhoça, na qual instalou uma só cama.

Ao ver um único leito, a filha do Nzambi recusou-se a dormir com seu pai e saiu, a chorar, da cabana.Ao ver a recusa da filha e não podendo convence-la doutra forma, disse-lhe que, se não viesse imediatamente para junto dele, seria devorada pelas feras que infestavam a floresta.

Transida de medo, pelo que acabava de ouvir, Kalunga entrou novamente na cabana, deitou-se junto de seu pai e com ele dormiu não só naquela noite, mas durante todo o tempo que durou a caçada.

Finda esta, regressaram a casa e, Ná Kalunga, tal como tinha previsto, verificou que a filha estava grávida do próprio pai. Enraivecida pelo ciúme e pelo desgosto, no meio das maiores blasfêmias, enforcou-se numa árvore, perante os olhares atônitos da filha e do marido que nada fizeram para evitar tal suicídio.

Desgostoso pela atitude da mulher, que não quis compreender os seus desígnios para povoar o Mundo que ele tinha criado, mostrando ser indigna de continuar a ser esposa daquele que lhe tinha dado o ser, em vez de lhe dar vida, novamente, amaldiçoou-a e transformou-a num espírito maligno, a que deu o nome de Mujimo.[3]

A partir dessa altura, o Nzambi passou então a viver maritalmente com sua filha Kalunga, a qual, depois da morte da mãe, passou a chamar-se também Ndala Karitanga, e a ser a segunda divindade.

Algum tempo depois da morte de sua mãe, durante um sonho, teve uma visão que a deixou apavorada. Viu a mãe com a cabeça apoiada nas mãos, a olha-la com rancor e a insultá-la, mordida pelo ciúme que ainda a devorava, enquanto ela, envergonhada, lhe pedia desculpa e lhe dizia que de nada era culpada, posto que, seu pai a tal a tinha obrigado. No meio desta aflição acordou e contou ao pai o seu pesadelo. Este sossegou-a, dizendo-lhe que nada receasse daquela que tinha sido sua mãe e que agora era espírito mal, pois que ela nenhum mal lhe poderia fazer, mas apenas lhe pedia comida. Portanto, disse ele, vamos dar-lha.

Levantaram-se ambos e ele fez um pequenino montão de terra, junto da porta da casa, simulando uma sepultura. Disse, então, à filha, que fosse buscar carne e outra comida e a pusesse sobre aquela sepultura, proferindo, ao mesmo tempo, as seguintes palavras: Mama ngu nézanga ua-ku-kurila. Halapuila kanda uiza kuri yami nawa; ny ngu-na-ku mono nawa, ngu n’eza ny ku checha (minha mãe acabo de vir chorar-te; agora, não voltes ter comigo outra vez (porque), se volto a ver-te venho matar-te).

Chegado que foi o tempo, Kalunga deu à luz um filho ao qual, seu pai-avô deu, também o nome de Ndala Karitanga, passando este a ser a terceira divindade.

Logo que o seu filho-neto cresceu e atingiu a adolescência, o Nzambi ordenou-lhe que casasse com sua mãe Kalunga, para que esta concebesse dele muitos filhos, de ambos os sexos, a fim de povoarem a Terra e dominarem todos os animais.

Cumprindo às ordem do Nzambi, sua filha e seu filho-neto casaram e tiveram um filho e uma filha. Quando estes chegaram à maioridade, o Nzambi ordenou, então que o primeiro casasse com sua mãe e a filha casasse com o pai, dizendo que já se não justificava a primeira união que ele tinha ordenado, informando-os, ainda, que depois daquelas uniões, as seguintes se fizessem só entre primos.

Por fim, depois de lhes ter ensinado tudo o que deveriam fazer, para que a sua descendência crescesse e se multiplicasse, pra que lutasse contra as doenças e os feitiços que um dos seus descendentes, do sexo feminino, viria a possuir, porque ele lhos legaria, o Nzambi despediu-se de todos. Chamando, depois, o seu cão, que sempre o acompanhava, dirigiu-se para a tchana tcha mweu (planalto do Mweu) [4] e dali subiu para o espaço, levando consigo o cão.

Naquela altura, as rochas estavam moles, por terem sido formadas há pouco tempo. Ainda hoje se podem observar as pegadas esculpidas, numa rocha ali existente, especialmente do pé direito do Nzambi, assim como da pata dianteira do seu cão. Estas pegadas existem também em diversas outras rochas por toda a África, incluindo Angola.

Foi, pois, dali que o Nzambi subiu à tchehunda tcha Nzambi( aldeia de Deus), ou céu como nós lhe chamamos, onde se conserva, através dos séculos, para recompensar os bons e castigar os maus.À pergunta que fizemos, a diferentes tutchokwe, como é e quem foi que criou Nzambi, eles responderam, apenas que, sendo ele Ndala Karitanga, se deve ter criado a si mesmo e que tudo o mais é mistério que jamais alguém conseguiu ou conseguirá desvendar.

Nota do autor: A lenda que acabamos de expor foi-nos contada no nosso acampamento do Luaco, conselho de Cambulo, em 1945, por dois velhos tutchokwe, trabalhadores da equipe de prospecção que dirigíamos. Esses homens eram naturais da região do Sombo, conselho de Camissombo. Um chamava-se Tchimjamba Sá Fuça e o outro Sá Hongo, ambos já falecidos. O primeiro morreu no Luaco, reformado da DIAMANG, o segundo, faleceu na sua terra natal, com cerca de 90 anos, em 1964.

Em 1962, ouvimos a mesma lenda da boca do Mwatchissengue José Sá Tambi, regedor de Saurimo e chefe dos tutchokwe da Lunda. Outros nossos informadores são os chefes lundas Ritende e Mwatchyanvwa. Além da mencionada lenda existe uma outra sobre a criação do Homem e do povoamento da Terra, que todos os tutchokwe de certa idade, como despositários da tradição oral, conheciam naquela altura e nós tivemos a sorte de recolher. Vejamos pois, o que ela diz:

Nzambi, depois de ter criado o mundo, criou também duas pessoas a quem chamou Sá Mutfu e Na Mutfu. A primeira criou-a com o sexo masculino; a segunda não tinha sexo, o que a entristecia.

O Nzambi criou-as e deixou-as no monte a que os Lunda chamam Ilundu Nyi Senga e a que os tutchokwe dão o nome de Lundu Nyi Senga, situado, segundo firmam, entre Kapanga e Sandoa, na região de Katanga. Ali construíram a sua casa, as duas recém-criadas pessoas, junto da nascente do riveiro Lwila, afluente do rio Lulua. Ao deixa-las, antes de subir para o espaço, acompanhado do seu cão, onde ainda hoje se encontra, o Nzambi entregou, ao Sá Mutfu, um cão, uma enorme cabaça e um embrulho, dizendo-lhe:

– Aqui tens um cão que será o teu mais fiel companheiro e caçará para ti. Nesta cabaça estão todos os animais, de tamanhos minúsculos, necessários ao povoamento da Terra, mas só devem abrí-la quando chegares perto do Kalunga ka meya (mar), para que eles saiam em boa ordem, cresçam, se multipliquem e te obedeçam. Depois de teres feito isto, no regresso, lavas o conteúdo do embrulho na água dos dois primeiros ribeiros que atravessares; só depois poderás entregá-lo à tua companheira Na Mutfu que o colocará no Mumelu (região púdica), a fim de que ela possa procriar, isto é, ter muitos filhos e filhas e ambos possais multiplicar a vossa espécie.

Cumprindo as ordens que recebera do Nzambi o Sá Mutfu, acompanhado do seu cão, dirigiu-se para o Ocidente, em direcção ao mar, levando consigo a grande cabaça e o embrulho, enquanto Na Mutfu ficou em casa, pois não se sentia com forças para o acompanhar.

O Sá Mutfu andou, andou, até que, vendo o rio Cassai e julgando tratar-se do mar que o Nzambi lhe tinha falado, destapou a cabaça e todos os animais saíram num instante. Quando o Sá Mutfu reparou que se tinha enganado e que aquilo era um rio e não o mar, chamou pelos animais para que voltassem a entrar na cabaça, a fim de os levar para junto do mar. Chamou, chamou, mas nenhum deles regressou à cabaça. Por esta razão, o primitivo nome do rio Cassai era “Karum” vocábulo lunda que significa mar.

Aborrecido e triste por se ter enganado, e os animais lhe não terem obedecido, regressou a casa, seguido do seu cão. O aborrecimento e a tristeza eram tais, que se esqueceu de lavar o conteúdo do embrulho na água dos dois primeiros ribeiros que atravessou, como o Nzambi lhe rinha indicado. Por tal motivo, quando já estava perto de casa, sentindo que o embrulho exalava um cheiro esquisito deitou-o fora.

Quando chegou a casa e contou a Na Mutfu o que lhe tinha sucedido, esta ficou indignada por ele ter aberto a cabaça antes de ter visto o mar.

– E o embrulho, que o Nzambi te deu, que lhe fizeste? Interrogou a Na Mutfu.

– Deitei-o fora por que começou a cheirar mal.

Ouvindo isto, a Na Mutfu mais aborrecida ficou e disse-lhe:

– Volta imediatamente atrás com o cão, a fim de recuperares o embrulho que me pertence e não me apareças aqui sem ele.

Cumprindo a vontade da sua companheira, o Sá Mutfu foi com o cão que encontrou o embrulho, na beira do ribeiro Lwila, entregando-o ao dono. Satisfeito, o Sá Mutfu regressou a casa e entregou o malcheiroso embrulho a Na Mutfu. Esta desmanchou-o e, tirando o seu conteúdo, colocou-o na região púdica, onde ficou implantado, transformando assim, naquele instante, a Na Mutfu, em mulher. Reparando, então, que eram sexos diferentes, a-ri-mbata (acasalaram-se) em lunda atejane.

Daquela união nasceu uma filha de nome Na Konda. Esta, por sua vez, concebeu de seu pai, Sá Mutfu, cinco filhos e três filhas. Aos filhos deram os nomes, por ordem de nascimento, de Kanongwena, Naweji, Sá Kambunji, Mwazanza e Tchinyama; as filhas chamavam-se Kasai, Lweji e Tembo.

Do Kanongwena descenderiam os povos baluba, baquete, bena-mai, lulua e outros de língua semelhante; de Sá Kambunji os Xinges e Minungos; de Tchinyama os Luenas. Os progenitores dos Lundas teriam sido Lweji, Naweji e Mwazanza; dos Tutchokwe, Kasai e Tembo.

O rio Cassai teria tomado este nome, depois de nele ter perecido a mão dos Tutchokwe ou Kasai. Esta, segundo a lenda, tendo-se ausentado do Lundu nyi Senga, quando regressou, disseram-lhe que seus filhos tinham seguido para o lado onde o sol se esconde.

Ouvindo isto, ficou desolada e foi atrás dos filhos. Ao chegar junto do rio Cassai, julgando que eles o tinham atravessado, lançou-se à água, a fim de o atravessar também, e lá morreu afogada. Dali em diante o “Karum” passou a chamar-se Cassai.

Nota do autor: Esta lenda contou-no-la em 1962, o chefe Emílio Ritenda Nawegi, residente nos arredores do Dundo, natural da Musumba, situada em Kapanga-Katanga. É um dos 108 filhos do Mwatchianvwa Kaumba (já falecido). O referido chefe foi enviado por seu pai em 1941, como chefe de todos os lundas que vivem no Nordeste de Lunda.

[1] O Nzambi é representado por uma pequena estatueta de madeira a qual simboliza um homem com os braços e pernas abertos e ligados a um rectângulo. O Nzambi é representado no Ngombo ya Tchisuka por uma braçadeira de canhangulo em forma de cruz ou por uma cruz feita de madeira ou de kajana.

[2] Ao contrário de nós, em que os filhos tomam os nomes dos progenitores, entre os nativos são os pais que tomam o nome da filha ou filho primogênito. Assim, por exemplo, logo que um casal tem o primeiro filho, os pais acrescentam, aos seus primitivos nomes, o nome do filho, precedido dos títulos de Sá ou Xá, para pai e Na para mãe. Desta forma, chamando-se a filha Kalunga, os pais chamar-se-ão, respectivamente, Sá ou Xá Kalunga e Na Kalunga. Kalunga, além de Deus supremo, designa tudo aquilo que é onipotente, imenso, infinito ou horroroso.

[3]Designa ventre mas, neste caso, significa o espírito da primeira mãe que existiu na terra.

[4] Segundo as indicações dos nativos a tchana tcha mweu (planalto do Mweu) situar-se-ia na região dos grandes lagos, possivelmente no Kilimanjaro, pois dizem que este monte está perto do Kalunga ka meya (mar, lago), e está sempre gelado. Também dão o nome de tchana tcha mweu a uma planície situada entre os rios Luembe e Cassai, aproximadamente a 11º 10’ de latitude sul e a 20º 20’ de longitude este, junto da nascente do ribeiro Mbanze (afluente do rio Chiumbe). Dão-lhe este nome por estar perto do Mweu (estrangulamento) do rio Cassai. Neste ponto o rio tem apenas cerca de quatro metros de largura. Segundo a tradição tchokwe foi junto à nascente do ribeito Mbanze que se estabeleceram, primeiramente, os chefes Ndumba-ua-Tembo, Muambumba, Muatchissengue e outros, quando fugiram à suserania do Mwatchyanvwa. Foi naquele mesmo ponto que, mais tarde, se reuniam, novamente, os três chefes e ali planearam a separação e distribuição de terras que, cada um, deveria ocupar. Convém notar que a crença num único Nzambi (Deus) é muito viva entre Tutchokwe e Lundas, independentemente da influência das missões cristãs. Estas, por sua vez, tendo encontrado uma tal crença, aproveitaram-na e apoiaram-se nela, o que facilitou a difusão da religião católica entre estes povos.

Fonte: Martins, João Vicente. CRENÇAS, ADVINHAÇÕES E MEDICINA TRADICIONAIS DOS TUTCHOKWE DO NORDESTE DE ANGOLA.

(*) Elizabeth B.Azevedo é graduada em Ciências Econômicas e pós-graduada em Matemática Financeira. Iniciada no candomblé em 1986, filha de Danguesu, neta de Saralandu, bisneta de Kianvulu e atualmente filha do Tumbalê Junçara-BA.

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