É importante, antes de tudo, tentarmos compreender o que venha a ser esse ritual e qual é o seu primordial objetivo.
Sabemos que a mútue é por muitos considerada como sendo o nosso primeiro Nkisi. Na concepção cosmogônica e metafísica dos iorubanos há um ditado que diz: “nenhum orixá abençoa uma pessoa antes da sua ori”.
Numa concepção mais generalizada, os povos africanos têm a mútue como uma força individual – própria de cada um dos seres – e responsável direta pelo nosso destino. Essa individualidade é comprovada pela seguinte questão: os demais Nkisi são forças relativizadas com a natureza e servem à várias mútues enquanto que o único Nkisi capaz de nos acompanhar até mesmo na nossa viagem para o eterno é, indiscutivelmente, a nossa mútue – esta não é separada do corpo nem mesmo quando o ser individual kufua (morre).
O ritual denominado Kibane-mútue tem por objetivo principal o fortalecimento da nossa mútue. Durante esse ato ritualístico não se faz necessária a presença “físico-material” do Nkisi regente àquele que está sendo submetido, muito embora, na maioria das vezes, é comum a presença deste.
Nas cerimônias ritualísticas destinadas à alimentação da mútue são realizados cânticos, saudações e louvores, visando despertar o fluir de forças até então ocultas em nós, além de servir como súplica àquele que designa os caminhos do destino, isto é, o responsável pelo direcionamento da vida daquele que está sendo subjugado ao ato.
De modo geral, a obrigação – Kibane-mútue – pode ser preparada e realizada de três formas, quais sejam:
1. Kibane-mútue – com oferecimento da amazi/kamenha (água pura) e do fruto sagrado makesu. O rito pode ou não, dependendo da raiz, ser acompanhado de um procedimento semelhante a uma procissão noturna;
2. A Kibane-mútue cujo rito seja composto de makundia (comidas) secas, acaçás em oferecimento a todos os Nkisi;
3. A Kibane-mútue considerada por Tatas e Nénguas como sendo completa.
Esta além de absorver as duas anteriores, ainda conta com os sacrifícios da (o) kerere (d’angola) e da (o) diembe (pomba).
Convém destacar que em qualquer uma das formas acima tudo terá que ser iniciado com a Kibane-mútue à base da amazi/kamenha e do fruto sagrado – makesu, posto que este é, indubitavelmente, a melhor representação material da mútue.
Ressalte-se, ainda, que todos os ritos devem ser precedidos de consultas incessantes aos oráculos. Neste caso específico, Kibane-mútue,respeitadas as respectivas raízes, as oferendas são compostas de frutos sagrados, mbiji (peixe), nzóne (aves) e makudia d’Nkisi (comidas) diversas.
Na verdade, todas essas oferendas têm o propósito exclusivo de delimitar e ativar o ponto de equilíbrio – isto é – o centro emanador de energia positiva do indivíduo. Os mais antigos afirmam que essa busca é comprovadora pelo sacrifício dos opostos, ou seja, a nzóve kerere (d’angola) – agitadíssima por natureza – e a diembe (pomba) naturalmente calma. O rito é complementado com a kamenha (água), algumas kunua (bebidas) específicas e frutas diversas.
Essa variedade de elementos faz com que a Kibane-mútue seja uma oferenda própria à emanação de todas forças – rumo a um objetivo único qual seja, o de restabelecimento natural do equilíbrio do primeiro regente do submetido – (a mútue).
(*) Espedito Azevedo é filósofo, especialista em Administração Legislativa e Gerenciamento de Projetos. Iniciado por Jiboin d’Nzambi é hoje Tata Kisaba do Terreiro Tumbalê Junçara, dirigido por Tata Talamonakô.
