O onjango é o centro da comunidade, onde se reúne o povo, para discutir assuntos do interesse geral, e onde se passam os testemunhos de toda uma cultura. Hoje quase desaparecidos, é um símbolo cultural importante a preservar.
Naquilo que é a cultura tradicional do povo Ovimbundu, o Onjango é uma grande herança dos antepassados, pois constitui um dos símbolos que enaltece a sua tradição, mormente os ritos, hábitos e costumes. De facto, o Onjango é por assim dizer, a casa dos ensinamentos e do aprendizado da vida das comunidades. É lá onde se discutem os problemas, onde se conversa amenamente, onde os mais-velhos transmitem a sua experiência aos mais jovens, e também onde se geram os sobas
CONSTRUÇÃO E INAUGURAÇÃO DO ONJANGO
A construção de um Onjango, é antecedida de um ritual. Cumprem-se algumas formalidades para evocar os espíritos dos antepassados. É o caso do barro preto, e a folha de raiz que é o “limbwé” que se coloca debaixo do tronco principal que segura o tecto. Na cerimónia, os participantes bebem a Tchissângua e o Tchassa (aguardente), mas sem antes a entornarem no chão, nas áreas das entradas e saídas do Onjango, para apaziguar os espíritos, também presentes na festa. Qualquer local serve para a construção do Onjango, desde que o mesmo seja escolhido por um líder da comunidade, um soba ou uma pessoa digna de respeito a quem é entregue essa responsabilidade, pois a terra é pertença dos antepassados. Na cultura Ovimbundu, o Onjango é construído sempre de capim e pau-a-pique, e envolve a colocação de um tronco no centro, uma espécie de forquilha, que suporta todos os paus que fazem a cobertura, estes denominados “ussoka”. A área central do Onjango encerra um significado especial, pois enaltece espiritualmente a presença dos antepassados. Modernamente, o Onjango pode ser construído de tijolo e chapas de zinco. Esta evolução não pode ser negada, porque os antepassados também acompanham e aceitam o evoluir dos tempos.
O RITUAL DA ENTRONIZAÇÃO DO SOBA
Um soba é entronizado através de um ritual, que envolve o atear de um fogo num qualquer graveto de árvore. Antes se abre um buraco. Arranja-se algodão também conhecido como “fucutu” e com um outro pau que se chama “oñsilsilo”, que fica nas mãos do entronizado, dá-se duas voltas fazendo força. O referido fogo significa o apaziguamento, tranquilidade e a força que acompanha o soba para simbolizar o seu poder de governação. Se o fogo ateado não pegar, é sinal de que o soba não deve ser aceite. Nesta situação, arranja-se outro. Esta cerimónia é acompanhada igualmente de experiências que são feitas por outros sobas, para verificarem e testarem as capacidades do futuro soba. Naquilo que é a cultura tradicional dos povos Ovimbundu, uma pessoa para ser soba tem de pertencer a genealogia de família de sobas de uma determinada região ou comunidade. De contrário, não tem qualquer possibilidade. Por seu lado, as mulheres só podem ser entronizadas quando não existam mais filhos homens. Assim, qualquer mulher que seja filha de soba e desde que tenha capacidade suficiente para governar, é entronizada. Não há discriminação. Mas segundo o ritual tradicional, o marido desta assume o cargo a posteriori, cuja sucessão é legada aos filhos. Se o marido tiver outra mulher e filhos, estes não são considerados herdeiros da família real.
OS ENSINAMENTOS DA VIDA
O “tchitonga” é o soba que todas as manhãs tem a responsabilidade de organizar um tema específico, arranjar a lenha e preparar as condições para todas as pessoas reunidas nas sessões no Onjango, no período da noite, jantem. A sabedoria popular, as fábulas e adivinhas, são ali contadas e aprendidas com muita atenção. Outros assuntos do dia-a-dia, como técnicas para a prática da agricultura, resolução de conflitos familiares ou particulares, o matrimónio, a circuncisão,… são ensinamentos legados no Onjango. O Onjango, é assim, um símbolo cultural a preservar, porque faz parte dos hábitos e costumes do nosso povo.João Pedro, no Huambo.
Fontes:
Soba Grande do Bailundo, Augusto Katchitiopolo
Pio Chiwale, Secção de História da Direcção Provincial da Educação e Cultura.
Julho/Agosto 2000
